MEDICINA & SAÚDE - Suplementos vitamínicos e visão

(*) Gabrielle Senter

Por
· 3 min de leitura
(Foto - Luciano Anderson Breitkreitz – ON)(Foto - Luciano Anderson Breitkreitz – ON)
(Foto - Luciano Anderson Breitkreitz – ON)
Você prefere ouvir essa matéria?

Na Oftalmologia, assim como em todas as áreas da saúde, existem doenças para as quais ainda não há cura e, muitas vezes, não são conhecidos métodos eficazes para evitar o seu surgimento ou progressão. Diante disso, o interesse e as pesquisas sobre suplementação nutricional vêm ganhando espaço em muitas áreas, inclusive no que diz respeito à saúde visual. A oferta de suplementos vitamínicos voltados para a visão tem crescido. Apresentam nomes comercias chamativos, apelo publicitário e muitas vezes, promessas nem sempre realistas. Não é raro vermos anúncios em meios de comunicação, incluindo emissoras de televisão com amplo alcance, de suplementos prometendo prevenir ou mesmo tratar condições como catarata, doenças de retina e “vista cansada”, nome popular para a presbiopia - condição que faz os olhos perderem a capacidade de focar objetos próximos, dificultando a leitura, geralmente após os 40 anos de idade, variando conforme condições de grau anterior, de pessoa para pessoa. 


Muita cautela

É necessário olhar com cautela e realismo para essas fórmulas, pois embora não causem danos à saúde, a maior parte de seus componentes não possuem comprovação científica de eficácia em algumas doenças e condições oculares. Trazendo dessa forma um ônus financeiro recorrente e falsas esperanças de cura. A maioria dos suplementos para visão disponíveis no mercado têm na composição luteína, zeaxantina, vitaminas C, E, zinco. Existem variações também com vitamina A, ômega 3 e 6, vitamina D, entre outros. Como saber então se há indicação ou não para usá-los e quais são seus reais benefícios? Antes de tudo, é necessário ressaltar que a real deficiência nutricional de determinadas vitaminas, pode levar a doenças oculares especificas, como no caso da chamada Cegueira Noturna relacionada com deficiência crônica de vitamina A. No entanto, para pessoas saudáveis, com uma boa alimentação, a quantidade necessária de vitaminas pode ser conseguida com dieta adequada, sem necessidade de suplementação.


Estudo específico

O complexo vitamínico composto por luteína, zeaxantina, vitamina C e zinco, foi estudado para pacientes com uma doença específica da retina, chamada de Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) em um famoso estudo conhecido como AREDS. Essa doença pode surgir em pessoas acima de 50 anos e é mais comum em fumantes, mas é importante ressaltar que a grande maioria dos problemas de visão nessa faixa etária não se deve a DMRI. Com o passar dos anos a visão perde a qualidade, a capacidade de ajuste de foco e nitidez naturalmente. Isso se deve a problemas muito mais comuns do envelhecimento, como a catarata. Entretanto a DMRI é uma doença potencialmente grave, na qual existem lesões na retina identificadas pelo oftalmologista no exame de fundo de olho, e avaliadas com exames como a tomografia da mácula, que é a região central da retina. Em pacientes já diagnosticados com DMRI, em estágio intermediário, o uso contínuo da suplementação estudada, provou reduzir a chance de piora do quadro. Porém, sem melhora das lesões já existentes. Além da suplementação indicada no momento correto pelo oftalmologista, o acompanhamento constante é necessário, pois no caso de piora deve-se instituir tratamento específico com injeções intraoculares. Vale ressaltar que o uso desta suplementação em pacientes sem a doença não mostrou beneficio em reduzir seu surgimento, assim como não evitou sua piora nos pacientes que tem o grau mais leve da doença. O mesmo estudo avaliou se o suplemento contendo luteína, zeaxantina, vitamina C e zinco poderia evitar a evolução da catarata senil, ou seja, a catarata causada pela idade que atinge grande parte das pessoas após os 60 anos. A conclusão é que não houve melhora da catarata ou diminuição do seu surgimento nos pacientes que usaram o suplemento. Ainda, esse suplemento não foi estudado para tratar a chamada “vista cansada” (presbiopia). Dessa forma, não podemos esperar que tais vitaminas evitem o surgimento ou resolvam a presbiopia. 


Prescrição individualizada

Outro tipo de suplementação comercializada para saúde ocular apresenta formulações contendo ômega 3 e 6. Neste caso, sua indicação está relacionada a doenças da chamada superfície ocular, que resultam no conhecido olho seco. Sua indicação deve ser individualizada, pois o oftalmologista precisa avaliar a causa do olho seco e dos sintomas do paciente, se há infecções ou inflamações associadas e decidir se o uso desses ácidos graxos vale a pena no longo prazo. Assim, a indicação de qualquer suplementação deve ser idealmente individualizada. O oftalmologista, baseando-se no exame, nos fatores de risco e nos possíveis benefícios reais da suplementação poderá prescrever o suplemento mais adequado, se de fato for necessário para a saúde visual.


(*) Dra. Gabrielle Senter é médica oftalmologista no Hospital da Visão em Passo Fundo

Gostou? Compartilhe