A cidade de Soledade está entre os municípios gaúchos mais impactados pelo novo conjunto de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, o chamado "Tarifaço de Trump". O município figura como o nono maior exportador gaúcho para o mercado norte-americano e tem na indústria das pedras preciosas, semipreciosas e derivados a base da sua economia. Somente em 2024, foram cerca de 20 milhões de dólares em exportações deste setor para os EUA, valor que agora corre o risco de despencar.
O impacto direto é sentido por mais de 300 empresas que atuam no setor em Soledade, responsável por aproximadamente 3 mil empregos. Estima-se que entre 30% e 35% da produção dessas empresas têm os Estados Unidos como destino. “A gente não tem uma ideia do que pode acontecer, mas estamos bem preocupados, porque nós não temos condições de repassar para outros mercados essa produção”, explica Gilberto Bortoluzi, presidente do Sindicato da Indústria e Beneficiamento de Pedras do RS (Sindipedras).
Consequências imediatas
De acordo com Bortoluzi, a medida norte-americana já começou a gerar reações. Algumas empresas aceleraram embarques aéreos antes da entrada em vigor das novas taxas, no dia 1º de agosto. Outras, por sua vez, cancelaram pedidos ou solicitaram o retorno de cargas já encaminhadas. "Há também mercadorias que já estão em alto-mar e aguardam definição. A expectativa é que, pelo menos para essas cargas, ainda valham as taxas antigas", afirma o dirigente.
As novas tarifas foram instituídas de maneira unilateral e pegam em cheio o setor de pedras brasileiras, que tem parte de sua produção moldada exclusivamente para o mercado americano. Bortoluzi alerta que há tipos de pedras e produtos trabalhados que são feitos só para os Estados Unidos. Repassar essa produção para outros mercados não é simples.
Impacto na economia local
A importância do setor vai além da exportação. Ele representa entre 35% e 40% do PIB municipal, segundo estimativas do sindicato. Diferente de culturas como soja ou gado, que exigem ciclos longos para retorno, a cadeia da pedra é dinâmica e gira todos os dias. "Ela movimenta as empresas familiares, as pequenas, as médias e até as grandes. Gira a economia local de forma intensa e contínua", afirma.
Boa parte da força de trabalho também está inserida em sistemas de terceirização. As pequenas empresas, por exemplo, prestam serviços para as maiores, criando um ciclo de dependência econômica. Soledade conta com mais de 200 pequenas empresas associadas à APPESOL e outras 80 vinculadas ao Sindipedras, fora as que não estão formalmente associadas, ultrapassando 300 empreendimentos ligados ao setor.
Falta de alternativas no curto prazo
A busca por novos mercados é um desafio adicional. Apesar de alguns negócios já ocorrerem pela internet e com outros países, a estrutura comercial do setor é altamente dependente dos EUA. "Tem empresas pequenas que já vendem para fora via internet, mas é uma parcela ainda pequena. A maioria depende das feiras e da relação direta com os compradores norte-americanos", explica Bortoluzi.
Ainda não há medidas concretas em Soledade, como férias coletivas ou cortes de produção, mas o setor está em estado de alerta. O presidente do Sindipedras diz que os empresários estão aguardando, os primeiros sinais reais do impacto. E esperam que haja bom senso dos governos, porque pode quebrar empresas e gerar desemprego em cascata.
O setor também tenta respostas no plano político e institucional. A Fiergs (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estão em contato com o governo federal em busca de soluções.
Esperança em uma solução diplomática
Apesar do momento ser de incerteza, a expectativa é de que a pressão dos próprios compradores norte-americanos possa reverter ou amenizar o tarifaço. “O mercado lá também será impactado. Essas pedras não são produtos essenciais, mas há um setor lá que depende delas, gira economia. Se sentirem o impacto, talvez pressionem o próprio governo”, avalia.
Enquanto isso, os empresários de Soledade aguardam os próximos capítulos de uma crise que pode comprometer um dos pilares da economia local. “A palavra que define o momento é apreensão”, conclui Bortoluzi.



