Setor de pedras preciosas sente impacto do tarifaço dos EUA

Empresas encerram atividades e setor projeta queda de 30% nos empregos

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O setor não esta exportando as mercadorias produzidas em Soledade para o Estados Unidos - Foto: Divulgação/Exposol O setor não esta exportando as mercadorias produzidas em Soledade para o Estados Unidos - Foto: Divulgação/Exposol
O setor não esta exportando as mercadorias produzidas em Soledade para o Estados Unidos - Foto: Divulgação/Exposol
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Em vigor há pouco mais de um mês, o aumento de tarifas imposto pelo governo dos Estados Unidos já começa a causar reflexos diretos na economia gaúcha. O novo tributo, que estabelece um imposto de 50% sobre os produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano, atinge em cheio o setor de pedras preciosas e semipreciosas de Soledade.

Reconhecida nacionalmente pela sua tradição na atividade, Soledade ocupa o nono lugar entre os maiores exportadores do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos. Somente em 2024, o município movimentou cerca de 20 milhões de dólares em vendas ao mercado americano. Contudo, o chamado “tarifaço” comprometeu esse fluxo de comércio e já gera efeitos severos no cotidiano de empresas e trabalhadores locais.

Fechamento de empresas e demissões

Segundo o presidente da Associação dos Pequenos Pedristas de Soledade (APPSOL), Marco de Oliveira, das 138 empresas associadas à entidade, 16 já encerraram as atividades desde o início da vigência da tarifa. Ele explica que o impacto se reflete principalmente sobre os pequenos empreendedores, que dependem da terceirização de serviços das grandes fábricas. “As empresas maiores estão com estoques lotados porque não conseguem vender. E se eles não vendem, não repassam serviços para nós. É um efeito em cadeia. Hoje temos cerca de três mil empregos diretos no município ligados ao setor. Estimamos que 30% deles podem desaparecer se a situação não melhorar”, destacou.

Marco relata que a própria realidade de sua empresa é um exemplo da crise: “Eu tinha nove funcionários, agora estou com apenas dois. Antes trabalhava em média cinco mil quilos de pedras por mês, hoje não chego a 10 quilos. Durante a pandemia, estávamos em três turnos de produção, agora não conseguimos manter nem meio turno”.

Auxílio financeiro em discussão

Diante da gravidade do cenário, representantes do Executivo e do Legislativo municipal realizaram reuniões com a categoria em busca de soluções. A principal medida apresentada até o momento foi um projeto de lei protocolado pela Prefeitura de Soledade na Câmara de Vereadores, que prevê um auxílio de R$ 8 mil por empresa.

A proposta estabelece prazo de carência de três meses e pagamento em 24 parcelas, com acréscimo apenas de correção monetária. A votação estava prevista para a sessão desta segunda-feira (15).

Alívio temporário

Para Marco, a medida representa um alívio temporário, mas não resolve o problema estrutural. “É um aporte pequeno, mas que pode dar um fôlego e ajudar bastante gente. O risco é que, se o setor não reagir, daqui três meses esse recurso vire um desespero quando começar o pagamento. Nosso setor já sofre com períodos sazonais, como janeiro e fevereiro, quando praticamente não há pedidos. Se a demanda não melhorar, a dificuldade pode aumentar ainda mais”.

Crise prolongada e incertezas

O dirigente da APPSOL ressalta que o setor pedrista já vinha enfrentando dificuldades nos últimos anos, mesmo antes da medida norte-americana. Segundo ele, a cada mês vinha ocorrendo uma queda de 5% a 10% na demanda, tendência que se agravou drasticamente com a imposição da tarifa. “Hoje a queda passa dos 50%. Se não houver uma reação no mercado externo, muitas empresas não vão resistir até o final do ano”, disse.

Marco também comenta sobre o reflexo da situação no comércio internacional. “O povo americano também está sofrendo, porque a mercadoria não está indo. E até os chineses, que vinham comprar aqui, sumiram. Eles estão aproveitando essa situação para tentar negociar produtos a preços muito abaixo do valor real. Pedra não é item de primeira necessidade, é supérfluo, só compra quem tem interesse específico. Então a queda é ainda mais acentuada”.

Patrimônio cultural e econômico

A crise chega em um momento emblemático para o município. Recentemente, Soledade foi oficialmente declarada Capital Nacional das Pedras Preciosas, reconhecimento que reforça a relevância da atividade para a identidade local. No entanto, o título contrasta com o cenário econômico de retração e insegurança enfrentado pelos empresários e trabalhadores.

“O setor pedrista sempre teve altos e baixos, mas sobrevivia pelo esforço dos empreendedores. Desta vez, o baque é muito forte. Estamos nos orgulhando do título de Capital Nacional, mas ao mesmo tempo vendo colegas fechando as portas e famílias perdendo seu sustento”, afirmou Marco.

Reflexos sociais

O impacto não se limita apenas à atividade econômica. A crise já começa a afetar iniciativas sociais mantidas pela associação. Tradicionalmente, a APPSOL realizava em outubro o “Jantar do Brilho do Sorriso”, evento beneficente destinado a arrecadar fundos para ações voltadas às crianças do município, como distribuição de brinquedos, alimentos e sorteios de bicicletas. Neste ano, no entanto, a atividade foi cancelada.

“Optamos por não realizar o jantar e usar os recursos para isentar os associados do pagamento da mensalidade por três meses, como forma de aliviar a carga financeira. É um esforço para segurar as empresas e evitar mais demissões”, explicou o presidente.

Expectativa cautelosa

Apesar do cenário difícil, o setor ainda mantém alguma esperança em relação ao mercado externo. Nesta semana, ocorre em Denver, nos Estados Unidos, uma feira internacional do setor, considerada estratégica para novos negócios. Entretanto, a incerteza quanto à permanência da tarifa americana e a retração da demanda global trazem cautela aos empreendedores de Soledade.

“Estamos sofrendo aqui, mas o mercado lá também está. Se não houver uma mudança, vai ser muito difícil mantermos nossas atividades. Precisamos de pedidos até o final do ano para garantir a sobrevivência de muitas empresas”, finalizou Marco.

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