OPINIÃO

Da Vila

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A gente nasce assim engraçadinhos, todos querem carinhar e pegar no colo e somos cheios de virtudes e inocências. À medida que crescemos adicionamos àquela matéria bruta bonanças e vicissitudes. No final da existência, na hora de passar a régua seremos as virtudes adicionadas ou as decepções estampadas. Claro que a auto-avaliação é sempre melhor do que a dos outros. Podemos ser melhores, iguais ou piores que outros. Pensamentos altos levam a coisas altas. A gente faz coisas do tamanho da gente. Grandes pessoas: grandes gestos, pessoas pequenas: gestos pequenos. Há muitas maneiras de ler caminhos indicativos à prosperidade pessoal. Uma delas é prestar atenção aos artistas populares. Conheci Martinho, o da Vila Isabel, em 1970 com O Pequeno Burguês em que se narra a história de um pobretão que encara uma faculdade de Medicina e que dá um duro danado. Mesmo assim, trabalhando e ralando prá caramba  é chamado de pequeno burguês: “mas, burgueses são vocês, eu não passo de um pobre coitado e quem quiser ser como eu, vai ter que penar um bocado”.  Em Choro Chorão (tema da novela Pecado capital) ele relata as razões do fim de um relacionamento por diferentes filosofias de vida. Ela, frívola, ao desvalorizar as coisas simples da vida, lamenta pelo que lhe falta; ele, ao contrário, é agradecido ao que tem e se emociona com o que vem a mais, mesmo que sejam pequenos prazeres: “você só chora, se desprezada, depreciada, na despedida/ e eu só choro pela vitória, pela beleza e quando estou feliz da vida”. Em Meu Homem, Martinho se traveste de Winnie Mandela e escreve uma carta a seu marido Nelson que está encarcerado em razão das coisas do apartheid. Winnie-Martinho descreve as lutas e desigualdades sociais dos negros africanos e brancos dominantes. Winnie-Martinho, comprometida visceralmente com seu povo, encerra magistralmente a música lamentando que não consegue viver feliz e nem dormir em paz: “será quando que os meus sonhos, meu homem, serão só doces sonhar?”. E em ex-amor, Martinho chega ao nirvana. Ele descreve que a vida gente pode ser trivial , mas pode ser ungida com uma mágica chamada amor. Porém nada é eterno e quando um amor termina deveríamos ser gratos por tê-lo vivido; mas não, lamentamos, sofremos e prolongamos a dor além do que se deveria: “sempre sonhamos, com o mais eterno amor/ infelizmente eu lamento, mas não deu/ nos desgastamos transformando tudo em dor/ mas mesmo assim, eu acredito que valeu...ex-amor, gostaria que tu soubesses /o quanto eu sofri ao ter que me afastar de ti/ não chorei, como louco até sorri/ mas no fundo só eu sei das angústias que senti”. Martinho escreveu 434 letras e músicas e somente pincei três delas. A vida simples pode ensinar muito,como a gente poderia ser maior do que é e o guia pode ser tanto um estrangeiro famoso quanto um cara da vila, como Martinho. Gênio.

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