Dados recentes revelam que, hoje, mais de 50% das pessoas residem em áreas urbanas. Segundo a Organização das Nações Unidas, que realiza levantamentos e oferece sugestões de melhorias para gestores públicos, a América Latina tem 75% da sua população total habitando áreas urbanas, o que corresponde, em números absolutos a 375 milhões dos 500 milhões de habitantes. O Brasil é o país com o maior índice de urbanização de toda a América Latina. Com esses números em mãos, uma aluna do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Passo Fundo (PPGEng/UPF) desenvolveu uma pesquisa sobre a qualidade das calçadas, principal espaço de acesso urbano. Voltada para Passo Fundo, a pesquisa apontou que a cidade está longe de oferecer qualidade e que muitas melhorias precisam ser feitas.
O aumento no número de pessoas nas cidades implica mudanças no planejamento urbano e no desenvolvimento sustentável. De acordo com Vanessa Tibola da Rocha, que já defendeu a dissertação, o objetivo principal do trabalho foi analisar indicadores de planejamento urbano sustentável para o estado do Rio Grande do Sul (considerando três cidades polo sul-rio-grandenses como base da pesquisa, quais sejam: Porto Alegre, Santa Maria e Passo Fundo), com foco na acessibilidade à cidade. “É importante ter a consciência de que cada atividade gera um impacto dentro do planeamento urbano. Hoje, um dos principais problemas das cidades tem relação direta com a mobilidade urbana e, nesse contexto, as calçadas podem dar uma resposta às questões que envolvem uma mobilidade mais sustentável. A importância das calçadas está diretamente ligada à acessibilidade e ao direito de todas as pessoas, independente da condição física, andarem com segurança”, pontua.
Avaliação in loco e entrevista com a população
Para diagnosticar a situação das calçadas de Passo Fundo, Vanessa utilizou metodologias, analisando sete indicadores que geraram o Índice de Qualidade das Calçadas (ICQ). Foram levados em consideração segurança (risco de atropelamento), manutenção (bom estado de trafegabilidade), largura efetiva (mínimo de 1,20m e sem obstáculos), seguridade (iluminação, baixos índices de assaltos e violência), atratividade visual (área verde), permeabilidade (qualidade do material utilizado e capacidade para absorver a água das chuvas) e acessibilidade (condições para que todas as pessoas possam trafegar).
A avaliação técnica ocorreu em 16 quarteirões da cidade, sorteados aleatoriamente, representando 16 bairros de estudos. Os questionamentos foram feitos para 370 pessoas, residentes nos locais observados. Segundo Vanessa, a pesquisa apontou muitos problemas, mas mostrou que a população está preocupada e disposta a melhorar a situação. “O resultado apontou em primeiro lugar a acessibilidade, em segundo a segurança, depois seguridade, atratividade visual, permeabilidade, largura e por último a manutenção. Todos os entrevistados ressaltaram a importância de se ter calçadas mais acessíveis, não ligadas apenas à questão de atender a pessoas com limitações físicas, mas de se construir calçadas de qualidade, além da conscientização de não obstruir e conservar”, ressalta.
A avaliação final do ambiente para os pedestres foi obtida através do IQC, calculado a partir de uma equação. O levantamento foi baseado em pontuações classificadas como excelente, ótimo, muito bom, bom, regular, ruim, muito ruim e péssimo, tendo a maioria das avaliações sido classificadas como muito ruim.
Na opinião da professora Luciana Brandli, orientadora do trabalho, a pesquisa foi pensada estatisticamente e pôde contemplar não apenas o centro da cidade, mas, de uma maneira geral, toda ela. “No trabalho, temos duas visões: a questão técnica e da população. Por meio do questionário, os moradores tiveram a oportunidade de opinar sobre essa questão tão importante. A partir desses pesos, conseguimos chegar a um valor para cada calçada, gerando o IQC, ou seja, chegamos a uma avaliação, ponderando o valor da população e a avaliação técnica”, explica.
Suporte para futuras ações
Para a aluna, o trabalho poderá dar suporte para futuras ações de melhorias no município, uma vez que a pesquisa ouviu a comunidade e levantou sugestões. Entre os pontos considerados importantes pelos moradores, está a elaboração de uma cartilha com parâmetros para se executar uma calçada, visando padronizar a qualidade desses espaços na cidade. “Falamos tanto em utilizar menos automóveis, então, precisamos pensar em soluções que garantam mais qualidade para que isso se torne realidade”, destaca.


