OPINIÃO

O assassinato do pensador

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Uma mulher sentada e segurando um filho pequeno nos braços. Ao seu lado o marido, um prisioneiro recém liberado das correntes, aguarda pelo cumprimento da sentença de pena capital. Eis que entra no recinto um grupo de homens, majoritariamente jovens, e ela diz: “Vê, Fulano, está é a última vez que conversam contigo os teus amigos, e tu com eles!” E o marido faz o quê? Lança um olhar especial a uma pessoa do grupo e decreta: “Ciclano, faze com que a conduzam para a casa!” A mulher é levada contrariada, se debatendo e amaldiçoando o marido e seus amigos com coisas que só as mulheres são propensas a dizer em uma ocasião como essa.
Que tal a cena descrita? Não lhe parece certa insensibilidade do marido para com a mulher e o filho? Esse comportamento, ainda que ele quisesse falar de coisas mais elevadas com os amigos, seria justificável para alguém que está prestes a morrer? Não nos apressamos para tirar conclusões. A cena apesentada, acredito, pelo menos para os minimamente familiarizados com o Fédon, o mais popular e, possivelmente, mais lido dos diálogos de Platão, já foi identificada como a histórica passagem que relata a última conversa de Sócrates com alguns dos seus discípulos, na prisão e no dia que seria executada a sentença da sua condenação à morte. A mulher é Xantipa, a esposa de Sócrates, cognominada de megera, e Fédon é o jovem que narra os trágicos e derradeiros momentos do mestre.
Sócrates, dizem, morreu pelas suas ideias. Cometeu uma espécie de “suicídio” por não condescender com as acusações que lhe foram imputadas e não aceitar penas alternativas. Afinal, a morte, para um filósofo como Sócrates não era um mal em sim mesma, uma vez que via a filosofia como aprendizagem e preparação para a morte. A morte seria um início e não um fim. Assim, na cena do Fédon, Sócrates esbanja serenidade, mais do que os outros personagens, mesmo diante da morte iminente.
E quanto ao fato de ele ter mandado a mulher e o filho embora e preferido ficar com amigos? Há estudiosos dos clássicos, como Olof Gigon, que argumentam que Xantipa e o filho, na passagem do Fédon, representam o mundo da humanidade simples e não dedicada à filosofia, e que, apesar do respeito merecido, deveriam arredar um passo quando a filosofia entrava em cena. Entenda-se que, na época, “arredar um passo “ significava que a gente comum, sem sutileza filosófica, não devia contar quando um filósofo, ainda que, no caso, sendo o marido dela, abria a boca. Explica, mas, nos tempos atuais, eu sei, não justifica.
Sócrates gozava de popularidade, vivia cercado de jovens e, ao mesmo tempo, angariava inimigos com a sua ironia refinada. Acabaria, no ano 399 a.C., acusado de corromper a juventude e desdenhar o culto aos deuses que davam sustentação à democracia grega. Uma coisa era indagar sobre o cosmos e outra bem diferente era especular sobre convenções e práticas do discurso oficial que relacionavam divindades à estabilidade cotidiana do Estado. Seus comentários em defesa da aristocracia (como um governo dos melhores) e de ironia à democracia, como sendo a instituição pela qual um macaco podia se tornar um cavalo, bastando que um número suficiente de pessoas vote nesse sentido, lhe custaram a ida aos tribunais.
Há quem sustente que Sócrates não receberia a pena capital. Havia alternativas para o seu caso. O processo fora montado para forçar o pensador a retratar-se. Mas ele se mostrou inflexível e irritou os juízes quando, na tradicional pergunta sobre qual a pena o réu considerava justa para si próprio, teria respondido que, uma vez tendo prestado tantos serviços à cidade achava justo receber uma pensão vitalícia do Estado. Também declarou que não aceitaria o degredo. Foi o suficiente para ser condenado à morte. E tampouco aceitou as oportunidades de fuga que lhe foram facultadas.
Assim, no raiar de um dia (não precisado) do ano 399 a.C., o homem que, ao ser apontado pelo oráculo de Delfos como o mais sábio de todos, saiu-se com o “Só sei que nada sei” e nos legou a maiêutica e o lema “Conhece-te a ti mesmo”, seria executado ao beber um extrato de folhas de plantas da espécie Conium maculatum, a popular cicuta.

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