OPINIÃO

Fumaça sufoca bebês

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A fragilidade de políticas públicas em favor da vida tem agravado o efeito predador desde o nascimento do brasileiro. A insana tropelia ambiental com as queimadas na Amazônia assola o direito à razoável sobrevivência dos nascituros. Os dados de 2019 revelam que dos dois mil internados por intoxicação pela fumaça das queimadas, 467 são crianças, bebês, frágeis, com menos de um ano. Observadores da saúde consideram também a gravidade de efeitos cumulativos, lesões de difícil reversão, nos pulmões em número espantoso de crianças de até cinco anos no território do norte e centro do país. Mesmo que não sejam hospitalizados. Frisamos a incidência de bebês, agredidos pelo ar viciado, sem nos esquecermos dos idosos, considerado segmentos igualmente exposto a este suplício. O histórico das queimadas, maldosamente provocadas, ou por outras causas, revela que em 2019 o aumento em relação a 2018 foi de 30%, nos dados do IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental. A denúncia retrata a miséria moral das políticas oficiais. A voracidade do fogo veio ao embalo de propositada frouxidão no combate ao desmatamento criminoso invariavelmente seguido de incêndio, também criminoso. Presenciamos claramente a investida de invasores das áreas preservadas incentivando a destruição, como generosidade a grandes proprietários grileiros ávidos de novas áreas. Essa política perdulária a custo de destruição ambiental andou ágil no perdão das multas de infratores, punição arbitrária a fiscais das áreas preservadas e opondo dificuldades aos guardiões da natureza. No mesmo rumo, o atual governo revelou perversa estratégia no sentido de derrubar o prestígio de instituições sagradas zelosas na preservação. Foram atacados institutos técnicos importantes, como o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais ou a atávica organização Chico Mendes, de resistência em favor dos habitantes extrativistas que defendem a própria sobrevivência, em combate à devastação das matas.

É grave o efeito da leviandade política ambiental. Felizmente o governo foi impelido a ouvir a reclamação mundial que representa dinheiro para o Brasil. Os bloqueios à exportação brasileira e até o sistema bancário conectado a interesses internacionais pressionam. O apelo está nas mãos do vice-presidente da República que jurou reduzir as queimadas, especialmente as criminosas, fragorosamente denunciadas pelas próprias instituições técnicas do estado brasileiro. Além dos prejuízos financeiros da má política de preservação das florestas, rios e solo, precisamos preservar o direito absoluto à boa respiração de todos, especialmente das crianças.

Saneamento

Finalmente o governo federal sancionou a lei que versa sobre o marco regulatório do saneamento básico. Legítimas pressões democráticas concorreram para a formalização da lei. Não basta, no entanto, a edição de norma jurídica. É preciso a consciência social, a força do povo, para agilizar o plano de socorro à desastrosa situação do saneamento básico que inclui água potável, e operação cívica de governo na reversão da perda das águas. A nova geração brasileira não pode dispensar recursos prioritários ao saneamento. Trata-se de meio destinado à dignidade familiar, especialmente a criança.

Os efeitos da pandemia revelam inúmeros prejuízos à infância, desde nutrição até a educação. As diferenças sociais não podem tornar-se o abismo.


O poder

O poema forte de Ivan Junqueira, O Poder, tem a verve rigorosa de bendita denúncia. “Eis o poder: seus palácios/ hospedam reis e vassalos,/ messalinas, pajens glabros,/ eunucos, aias, lacaios,/ e até artistas e ratos.” E, em seu verso final...”O poder é aquele pássaro/ que te aguarda sob os galhos./ Tudo ele dá, perdulário./ De ti quer apenas a alma./ Por inteiro. Ou o retalho.” 


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