OPINIÃO

Lorelei Lee

Por
· 1 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Dia 5 de agosto de 1962, domingo 04:30h, Lorelei foi declarada morta aos 36 anos; estava deitada de bruços com a mão esquerda segurando o telefone. Livores manchavam sua pele linda, não parecia nem de perto o furacão que enlouqueceu os homens, todos eles, por quase 15 anos. Os frascos de barbitúricos sobre o criado mudo denunciavam seu desiderato: suicídio. Seria mesmo isso? Ou seria que Hollywood sangrara mais um de seu personagens mais emblemáticos? Porque a vida é assim, a vida dos negócios, pelo menos. Todos temos nossos prazos de validade e a partir dos quais somos substituídos peremptoriamente. Lorelei não era mais Lorelei quando em “O Pecado Mora ao Lado” fez a cena em que sua saia esvoaçante sobre a grade do metrô em New York transformou a inocente Lorelei na vênus platinada prosaica e vulnerável, agora como Marylin Monroe. Sem berço, pai desconhecido, mãe louca, mal casada dos 16 aos 20 anos, operária de fábrica era Norma Jeane Mortenson e havia sofrido abusos na infância. Mas, quem se interessava por isso tudo? Somente ela sabia-se e sofria por se saber. Entupia-se de calmantes, dormia nas horas erradas, atrasava-se para as filmagens, tinha brancos diante das câmeras. Era disléxica e bipolar, tinha endometriose, cólicas e pesadelos intermináveis. No dia em que foi encontrada morta tinha viagem marcada para Paris com o milionário brasileiro Jorginho Guinle que teve romances com a maioria das grandes divas do cinema entre os anos 50-60. Dele, de seu poder, só tenho o nome.

Jerry Lewis, falecido em agosto de 2017, era agitado, sarcástico, inteligente (QI 145, mesma marca de Benjamin Franklin e Galileu). Seus personagens, quase todos autobiográficos, exibiam edipianismo do medo, complexo de inferioridade, infantilismo, misoginia e narcisismo. Era obstinado, tenso, disciplinado e extremamente perfeccionista. Era um compêndio de arte e distúrbios, servia à Hollywood.

Cacilda Becker teve um derrame cerebral enquanto encenava “Esperando Godot”, de Samuel Beckett e morreu dias após. Foi levada ao hospital com suas roupas de palco. Lembro-me bem desse dia de junho de 1969 quando comuniquei a minha mãe a notícia que ouvira no rádio.

Nossas vidas vão perdendo o viço progressivamente; como diz a música – a velha guarda agora está se reunindo em outro lugar.

Todas as informações de cinema aqui contidas estão no excelente livro Vai Começar a Sessão (Sergio Augusto). Boa leitura.


Gostou? Compartilhe