OPINIÃO

Tartufo volta à cena!

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A repetição de vidas infames, revestidas de retidão aparente, abutres tomados por pombas, viceja a qualquer tempo em todos os quadrantes da terra. Jean Baptiste–Poquelin, na célebre antonomásia de Moliére descreve o quanto é perversa a deturpação de caráter de quem se nutre do mal, mas simula apostolado do bem. A figura de linguagem (antonomásia) tem ilustrado a oratória popular ou mais requintada, com expressões conhecidas como Águia de Haia, para descrever o êxito de nossa inteligência nacional na figura de Rui Barbosa. São expressões consagradas no entendimento popular como “o Cisne de Mântua”, para nos referirmos ao nível elevado da obra literária de Virgílio. Na retórica substitui-se o nome próprio por imagem referencial, ou vice-versa. Em nossos tempos, os festejados comunicadores em narrações futebolísticas explicam bem o recurso lingüístico, ao se referirem ao legendário Bebeto, de célebre potência no chute: “o Canhão da Montanha”. Então, a mais tenebrosa falsidade encontra referência na figura de Tartufo – o Hipócrita!

A indecência contumaz do Tartufo começa com a aterrorizante atitude que nega essência humana como filho de Deus. Com inexcedível concentração na falsidade apregoa a própria imagem de atraente moralizador. Forma um rebuscado requinte de posturas produzindo dogmas de bondade mediante afirmações de cunho religioso, em pragmatismo alucinante de virtuosidade. Ao coletar seguidores de suas falsas promessas é habilidoso em tiradas de simpatia. Tiranias de fato. São, normalmente, pessoas de poder persuasivo acentuado e oferecem bocadas de solidariedade.


A falsidade

A história está repleta de agentes que sustentaram durante largo tempo a face da generosidade, mas sempre com o ato soturno de auferir vantagem para si, a qualquer preço, vendendo idéia de retidão. Assim foram Hitler – e o nazismo, o cardeal Richelieu – criador do absolutismo real na França e os vendedores de escravos negros no Brasil, que mantinham imagem de ilustres no comércio criminoso. O interesse tinha a acolhida de poderosos que não descuidavam e emprestavam honores aos escravistas, comparsas que gozavam de prestígio nos altos escalões. O fruto almejado pelo Tartufo, de extrema dissimulação, é sempre o dinheiro. Fora de qualquer idealismo transparente.

Perigos escondidos

Alguns episódios recentes e atuais de nossa história revelam como certas figuras públicas instalaram-se com seus arsenais de psicopatia nas famílias, na religião e em todas as instituições sociais. A extrema traição ao respeito humano revela-se logo em ambientes considerados sagrados por seguidores e devotos, na família, entidades sociais, religião e braços da política partidária. Vejam os exemplares mais chocantes como João de Deus, Flordelis ou a dinastia da corrupção atrelada a partidos políticos e poder, especialmente no horror do Rio de Janeiro. Mentes criminosas e insensíveis ao assassinato percorrendo caminhos do engano, assumindo funções de vestais de uma coletividade ingênua. É a síndrome de Tartufo, onde malfeitores se revestem de benfeitores, mas ofendem frontalmente conceitos de dignidade. A psiquiatria certamente tem enfrentado questionamentos de difícil resposta diante de condutas terrivelmente prejudiciais ao convívio humano.


Retoques:

·       A grosseira pressão contra repórteres que freqüentam portarias e proximidades dos hospitais do Rio é brutalidade contra democracia. O jornalismo, especialmente no seu chão de fábrica exercido pelos reportes é entidade necessária. Toda a estrutura de jornalismo vem sofrendo como representação do pensamento popular. Há também fragilidades nos meios de comunicação. Na frança, os defensores mais exaltados contra a crítica eram conhecidos como “Chien de Garde” (cão de guarda). A bem da verdade, mais sofisticados que os toscos agentes contratados com dinheiro do povo para calar possíveis denúncias. A própria Globo, diretamente atacada nessa discrepância, ganha fôlego de legitimidade.

·       O absurdo preço do gás de cozinha pode estar no fim. Tem que baratear pelo seu caráter de essencialidade à sobrevivência do povo, com ou sem pandemia.

·       A aflição geral está levando o povo ao assombro cotidiano com a morte de milhares pela pandemia. No momento em que se prenuncia esperançosamente uma vacina, o governo federal lança campanha nitidamente negativista. Tudo por causa de polêmica partidária com o estado de São Paulo. Em vez de enfrentar o debate no estado, o Palácio inverte a pedagogia em relação a todo o território nacional. Enquanto isso a resposta é “apenas uma gripezinha”. Que é isso?


 


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