Até outubro, o Rio Grande do Sul chegou a 61 mulheres assassinadas em crimes classificados como feminicídio. Entre janeiro e setembro, foram contabilizadas ainda 186 tentativas, uma média de 4,3 casos por semana. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) e revelam a dimensão da violência contra as mulheres.
O 61º caso foi registrado na última semana, em Erechim, no norte do Estado. A vítima tinha 27 anos. Além das mortes e tentativas, os registros apontam 22.737 ocorrências de ameaça, 12.135 de lesão corporal e 1.460 de estupro entre janeiro e setembro.
Os números correspondem às ocorrências registradas pelas autoridades e não representam, necessariamente, toda a violência vivida pelas mulheres, já que nem todas as vítimas procuram os órgãos de segurança. As ameaças e agressões, porém, demonstram que o problema vai além dos casos que resultam em morte e reforçam a importância da prevenção e da denúncia.
Cenário em Passo Fundo
Em Passo Fundo, não houve feminicídios consumados em 2026, mas foram registradas duas tentativas. Entre janeiro e setembro, a cidade contabilizou 557 ocorrências de ameaça, 322 de lesão corporal e 34 de estupro.
Os dados mostram que, mesmo sem mortes registradas no período, a violência contra as mulheres permanece presente na realidade local. Ameaças e agressões físicas são situações que exigem atenção e podem demandar medidas protetivas para evitar o agravamento da violência. Atualmente, mais de 800 medidas protetivas estão ativas no município.
Rede de proteção e acolhimento
A Coordenadoria Municipal da Mulher de Passo Fundo atua na articulação dos serviços públicos voltados à proteção das mulheres. Segundo a coordenadora Danúbia Samora, o órgão aproxima o poder público da comunidade e contribui para transformar os direitos garantidos por lei em ações práticas.
“Hoje, sua presença nos municípios é fundamental para que as mulheres se sintam mais seguras, já que ela transforma o amparo legal em ações práticas e acessíveis”, afirma.
O trabalho envolve a integração de diferentes setores, como segurança pública, assistência social, saúde e Judiciário. A articulação busca facilitar o atendimento e evitar a chamada revitimização, situação em que a mulher precisa repetir seu relato diversas vezes ao procurar diferentes serviços. A rede também permite encaminhamentos para acolhimento, orientação jurídica e solicitação de medidas protetivas.
Conforme Danúbia, a coordenadoria também atua na prevenção e na promoção da autonomia feminina. O apoio inclui iniciativas de capacitação profissional, incentivo à geração de renda e encaminhamento ao mercado de trabalho. A independência financeira pode ser determinante para mulheres que permanecem em relacionamentos abusivos por não terem condições de sustentar a si mesmas e aos filhos.
A coordenadora destaca ainda a importância de reconhecer os primeiros sinais de violência, que nem sempre começam com agressões físicas. O controle excessivo, o ciúme, as ameaças e as agressões verbais podem fazer parte de relacionamentos abusivos.
“Quando uma mulher sabe que o seu município possui um órgão dedicado exclusivamente a ouvir suas demandas, fiscalizar as leis e oferecer uma rota de fuga segura contra a violência, ela ganha a confiança necessária para denunciar e buscar ajuda, sabendo que não estará sozinha”, ressalta.
Danúbia também chama a atenção para a importância de reconhecer a gravidade do feminicídio na formulação de políticas públicas. Para ela, negar a existência ou a dimensão desse tipo de crime prejudica as ações de proteção.
“Negar o feminicídio não é apenas um exercício retórico, é algo que, na prática, deslegitima políticas públicas de proteção às mulheres, dificulta a atribuição de recursos para redes de acolhimento e enfraquece a responsabilização dos agressores”, afirma.
Perícia especializada
Como parte das iniciativas de enfrentamento aos feminicídios, o Instituto-Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul criou o Núcleo de Perícias em Feminicídio (NUPEFEM). A estrutura deverá atuar na capital e no interior, com procedimentos específicos para examinar evidências encontradas nas cenas desses crimes.
A proposta é ampliar a análise para além dos vestígios que possam relacionar um suspeito ao local. Os peritos também deverão buscar elementos que ajudem a reconstruir as circunstâncias do crime e a identificar possíveis sinais de violência anterior.
O núcleo reunirá profissionais de cinco áreas do IGP: Criminalística, Médico-Legal, Perícias Laboratoriais, Identificação e Perícias do Interior.
Dados para prevenir
Além do trabalho pericial, o NUPEFEM deverá organizar informações técnicas para identificar padrões e mapear as ocorrências no Estado. A iniciativa prevê a criação de um banco de dados específico para casos de feminicídio, respeitando as regras de sigilo e proteção das informações.
Mulheres que precisam de orientação ou desejam denunciar podem entrar em contato com o Ligue 180, serviço nacional gratuito de atendimento à mulher. Em situações de emergência, a Brigada Militar pode ser acionada pelo telefone 190.


