2017 no olhar de especialistas

Da política ao comportamento humano, as perspectivas para o próximo ano incluem um cenário econômico difícil, as insatisfações e o maniqueísmo das relações

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Após um ano marcado pelas dificuldades econômicas e conflitos políticos, o cenário de instabilidade deverá se manter em 2017, conforme especialistas. Especialmente para a economia, uma vez que a retomada do crescimento exige a estabilidade de instituições. De acordo com a doutora em economia e professora da UPF, Cleide Moretto, o ano de 2016 foi o “período de maior instabilidade institucional das últimas décadas”. O processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef e a configuração do governo provisório de Michel Temer não garantiram a confiança necessária que os empresários aguardavam, o que deve retardar o crescimento, conforme a especialista.

“A falência moral do sistema político, não obstante, continua impregnando as políticas econômicas, no âmbito fiscal e monetário, e instaura novos arranjos que comprometem a situação dos micro e pequenos empreendimentos, dos trabalhadores e dos indivíduos em situação de vulnerabilidade social. Na ausência de confiança e de credibilidade, a economia retrai em todos os setores de atividades econômica. A crise do emprego vem demonstrando o seu lado mais grave”, ressalta Cleide.

Sem empregos e renda, consequentemente, “a população brasileira atingiu níveis de endividamento insustentáveis”, enfatiza. Em um período de “depressão econômica”, a especialista lembra que a queda prevista para 2016, no nível de atividade econômica, está próxima a 3%. “Esta instabilidade conjuntural aconteceu em um momento em que a economia brasileira já vinha enfrentando sérios problemas no âmbito da competitividade e da produtividade industrial, comprometendo a agregação de valor ao Produto Interno Bruto. Apresentamos um perfil de comércio internacional primário-exportador, restringindo a possibilidade de absorção tecnológica, fundamental para o aumento da produtividade. O que tem movido a economia brasileira na última década tem sido o capital especulativo, orientado pelas taxas de juros mais elevadas do mundo, que não gera empregos”, afirma.

Na política, o ano de 2016 foi, para o doutor em Ciências Sociais, Benedito Tadeu César, desastroso. A cassação de Dilma, as atitudes de juízes, Ministério Público e Polícia Fedeal em descumprirem garantias individuais e constitucionais que afrontam a normalidade democrática e o confronto entre os três poderes configuram a crise institucional, segundo Tadeu. “O risco de que a instabilidade social e política [aumente] é cada vez maior. As consequências do congelamento de investimentos nas áreas sociais e nos investimentos públicos pelos próximos 20 anos, aprovado no dia 13 último, não resolverá a crise econômica, que deverá se manter por, pelo menos, mais um semestre. O desemprego aumentará e o poder aquisitivo da população cairá”, acredita o sociólogo.

Em crítica aos grandes veículos de comunicação - que responsabilizam os governos petistas pela crise - Tadeu acredita que a população deverá começar e se revoltar com a falta de resultados e responsabilizará os atuais governantes. “A saída mais provável, neste momento, será a cassação de Temer e a eleição indireta de um substituto que, no entanto, só conseguirá se legitimar se conseguir reverter a crise econômica em curto prazo. Caso isto não ocorra, a instabilidade continuará e tenderá a se agravar”, explica.

Sofrimentos e esperanças

Ao mesmo tempo que as crises provocam sofrimento, elas promovem esperança, ainda que pareça contraditório. É o que acredita o historiador e professor Antônio Kurtz Amantino ao afirmar que após tantos anos de uma política mais de esquerda, começam a surgir tendências mais liberais na sociedade brasileira. “Parece que, finalmente, estamos descobrindo que o Estado brasileiro transformou-se num fardo que os cidadãos brasileiros não conseguem mais carregar. Nosso Estado sofre de obesidade mórbida. Necessita urgente de uma cirurgia que possa diminuir seu tamanho. Os Estados devem ser como os tigres, ágeis e fortes. E não como os elefantes, lerdos e pesados”, reconhece.

Conforme Amantino, o governo Temer montou uma equipe econômica técnica e competente, que conseguiu aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos gastos públicos (241 ou 55). “Se esse governo transitório, que já conseguiu uma lei para limitar os gastos públicos, sobreviver à Lava Jato e conseguir reformar o sistema previdenciário, ele terá realizado uma obra de grande valor e importância, sem a qual o Brasil dificilmente retomará o caminho do crescimento, gerando prosperidade para seu povo”, opina.

Quanto aos sentimentos de crise, eles surgem em um momento de crescente participação popular que é “estimulada pelas facilidades trazidas pela revolucionária transformação das comunicações por meio das chamadas redes sociais. Os brasileiros, ao que tudo indica, não irão mais tolerar a velha e corrompida forma de fazer política. E também começam a demonstrar um crescente repúdio aos privilégios nada republicanos das elites e de certas parcelas do funcionalismo dos poderes legislativo, judiciário e executivo. Toda essa insatisfação se manifesta num apoio entusiástico de mais de 80% dos brasileiros à Operação Lava Jato, marco dos mais decisivos na história contemporânea brasileira”, reitera.

Ações de longo prazo

As recentes medidas adotadas se constituem como cuidados paliativos, o que deverá manter a dificuldade econômica em 2017, na visão de Cleide Moretto. As medidas de ajuste fiscal instaladas com a aprovação da PEC possuem um efeito maior na taxa de câmbio e nas bolsas. “O que nos falta é um modelo de desenvolvimento socioeconômico que garanta ações de longo prazo. As reformas deverão estar de acordo com esse modelo, assim como adoção de ações visando corrigir discrepâncias nas dimensões econômicas, sociais, ambientais, culturais e políticas. Nesse modelo, o mercado interno deve ser o centro das decisões. A retomada do setor industrial é crucial. A reforma tributária deverá ser orientada para a competitividade produtiva. Enquanto o modelo econômico não oferecer condições adequadas para a produção interna, continuaremos a utilizar a nossa renda para remunerar o capital e o trabalho de outras economias, comprometendo o nível de emprego da economia nacional”, assegura a especialista.


Na agricultura, expectativa otimista

A região tem como principais culturas de verão a soja e o milho, enquanto as principais culturas de inverno são o trigo, a cevada, a canola e a aveia. Conforme o engenheiro agrônomo Cláudio Doro, o cenário de algumas culturas está bom e gera expectativa quanto a safra do próximo ano. Na soja, com um cultivo de mais de 574 mil hectares (ha), a produtividade média foi de 3,3 kg/ha. “Os preços no mercado estão sendo muito bons proporcionando boa margem de lucro e incentivando os agricultores a expandirem em áreas e investirem em tecnologia e máquinas”, explica Doro.

A produtividade do milho também foi excelente, o que proporcionou bons resultados aos produtores, com altos preços devido ao aquecimento das exportações brasileiras, demanda interna aquecida e dólar valorizado, conforme o especialista. “Os produtores rurais têm nas culturas da soja e do milho o sustentáculo econômico das suas atividades, proporcionando-lhes estabilidade de produção e rentabilidade para se manter e investir na atividade”, garante.

O especialista sustenta que os produtores se baseiam no resultado da última safra.“A safra 2017 está sendo aguardada com grande expectativa em relação aos seus resultados , pois temos informações de irregularidades no comportamento climático. As culturas estabelecidas estão com bom padrão de lavouras. A soja está em estágio de desenvolvimento vegetativo e o milho em fase de pendoamento ambas necessitando de boas chuvas.. Se depender do aspecto tecnológico deveremos repetir os resultados da safra 2016, porem o clima será fator determinante para o sucesso dos empreendimentos”.


Educação e o déficit social
O cenário educacional brasileiro não ficou de fora das turbulências geradas por decisões políticas em 2016. Pelo contrário: gerou greve de alunos e professores, e fez com que estudantes de diferentes estados e níveis de ensino se mobilizassem para ocupar escolas e universidades públicas, como maneira de demonstrar o quanto desaprovam algumas medidas. A mais recente delas, e uma das mais polêmicas, é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55, que prevê o limite de gastos públicos no futuro, em áreas como saúde e educação – que já necessitariam de maior investimento.

Mestre em Educação e coordenador da Divisão de Extensão da Universidade de Passo Fundo (UPF), Márcio Tascheto diz que o cenário educacional brasileiro sempre foi marcado por um déficit gigantesco em termos sociais, com problemas crônicos como falta de estrutura, desvalorização dos professores, falta de investimento, má gestão da coisa pública e ausência de projetos pedagógicos consistentes e compatíveis com as realidades brasileiras, mas nos últimos anos, avanços significativos teriam sido registrados, aumentando investimentos, pensando coletivamente novas concepções pedagógicas, democratizando o acesso e a permanência, melhorando os indicadores educacionais. “Sem dúvida, ainda insuficientes e necessitando maior impacto, mas representativos para um segmento muito amplo da sociedade. No entanto, de 2013 para cá, como reza a tradição brasileira, vivemos um momento de retrocesso célere.

Além de não conseguirmos dar continuidade aos avanços conquistados com tão duras penas, estamos experimentando um ataque frontal à educação”, pondera.
Tascheto se mostra pessimista quanto ao próximo ano, na área educacional. Ele acredita que a PEC 55 é uma investida de sabotagem do futuro, que mais do que congelar por meio da contenção de gastos, alonga a desigualdade brasileira, e que acompanhada de um pacote de austeridade e autoritarismo, contribui como exemplo maior para um cenário nada promissor na atualidade. “Se não organizarmos essa indignação difusa que se espalha pelo país, não conseguiremos reverter essa tendência ao desmonte dos direitos e o costume a uma cidadania de baixa intensidade. Como o tempo não é algo previsível e nem tampouco dado de antemão, precisamos gestar possibilidades políticas que possam abrir novas estratégias de controle do presente. Estratégias que nos devolvam, educadores ou não, a possibilidade de recriar um cenário nacional outro. A educação é uma ferramenta poderosa para isso. Não por acaso está em disputa”.

Comportamento humano e suas variações
Em um ano de instabilidades, o modo como cada pessoa reage a diferentes situações levantou questionamentos a respeito do comportamento humano. Não foi incomum presenciar dissolução de relacionamentos familiares e conjugais por posicionamentos políticos divergentes, evidenciando pensamentos intolerantes e extremistas; ao mesmo tempo, o caso da queda do avião com o time de futebol Chapecoense, em que 71 pessoas morreram, trouxe o congraçamento de torcidas tradicionalmente inimigas.

A especialista em Psicologia na Comunicação e mestre em Comunicação e Semiótica, Maria Goreti Betencourt, diz que esses episódios comprovam o quanto o sujeito é emocional, mesmo quando se declara completamente intelectualizado. “O comportamento humano é uma situação mais ou menos estável, que não se modifica ano a ano. O que se observou, sim, foram peculiaridades que chamaram a atenção neste ano em particular e que colocaram em evidência o que já se espera do comportamento social das pessoas”, explica. Segundo ela, essas peculiaridades foram reforçadas pelos diferentes eventos que 2016 proporcionou em termos políticos e afetivos, ampliados pelo efeito potencial de comunicação das redes sociais, que serviram como ferramenta para disseminar discursos intolerantes. “No passado também ocorria, só que o impacto era menor porque as tecnologias eram mais morosas ou não acessíveis a todos. O problema não é o instrumento senão o sujeito que manipula esse instrumento. Se uma pessoa com um sentimento muito forte, negativo ou positivo, diante de alguma coisa encontra outro que também compartilha de seu sentimento, esse se amplia e se reforça”.

Goreti exemplifica que, em outras épocas, as pessoas também sofriam discriminação e eram punidas com prisão, tortura e até morte. Hoje, embora mais “civilizada”, a população desenvolveu outras formas de continuar a discriminação e a eliminação de quem pensa ou ousa agir diferente da regra. Ela associa isso ao quanto o poder é sedutor e alvo do desejo humano, pois dá a um sujeito uma ascendência sobre o outro. Um indivíduo, diante da ameaça de perder a estrutura onde se assentava suas verdades e atitudes, e, consequentemente, perder o seu “poder”, agride e se revolta. “Não muda o comportamento, mudam as circunstâncias, e o grande desencadeador dos comportamentos extremistas são as consideradas verdades absolutas de cada pessoa alimentando uma cegueira psíquica, chamada intolerância humana”.

Especialista e mestre em Psiquiatria, Jorge Alberto Salton caracteriza os comportamentos extremistas e intolerantes como frutos do maniqueísmo. A origem do termo maniqueísmo vem de um persa do século III, chamado Mani. Para ele, o universo seria dominado por princípios antagônicos: o bem absoluto e o mal absoluto. Pessoas e ações seriam inteiramente boas ou inteiramente más. “Essa forma simplória de pensar se manifesta na nossa vida em relações, na cultura, na política, na história e em inúmeras outras áreas. Piora conflitos, provoca desavenças familiares, separações conflituosas, rupturas definitivas. E mais: incrementa decisões nefastas tomadas por detentores do poder e gestores de nossos destinos”, avalia. Na percepção de Salton, a maneira maniqueísta de pensar se estabeleceu com mais amplitude em 2016 por ter sido um ano em que o poder principal do país esteve em clara disputa e uma velha discussão ideológica veio à tona – direita e esquerda. O psiquiatra comenta que a defesa de uma ideologia cega o indivíduo e o faz pensar que não precisa se debruçar sobre um problema, pois já sabe a causa e a solução: a causa está nos "maus" e a solução está na vitória dos "bons".

Enquanto Salton espera que a maneira maniqueísta de pensar seja superada em 2017, Goreti acredita que o próximo ano continuará mostrando discrepâncias e abusos, mesmo da classe política. Um comportamento que também não é novidade. “É ingênuo colocar as dificuldades atuais em uma ou outra composição política mais recente. Esse comportamento oportunista da classe política no Brasil é bastante antigo, porém menos visualizado que agora, justamente pela facilidade, hoje, dos meios de comunicação”. Ela diz que a falta de um conhecimento mais profundo e menos acalorado é em grande medida a responsável pela forma leviana com que as pessoas se posicionam raivosamente diante de um evento político. “Se as pessoas se prestarem mais a ouvir as razões do outro – não é necessário aceitar a opinião alheia, não é preciso concordar com nada, mas há que se permitir que o outro tenha o direito de também expressar, respeitosamente, o que pensa... Se isso fosse assim, certamente estaríamos diante de uma nova humanidade”.

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