“Ele ainda tinha muito a dar para o Brasil”

Exilado pela ditadura de 1964 e ex-presidente do Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul, João Carlos Bona Garcia faleceu na última sexta-feira (12), vítima da Covid-19

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(Foto: TVE)(Foto: TVE)
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O advogado e sociólogo João Carlos Bona Garcia faleceu, na última sexta-feira (12), aos 74 anos de idade, vítima da Covid-19. Natural de Passo Fundo, Bona foi uma das principais lideranças de oposição à ditadura militar de 1964, chefiou a Casa Civil no governo de Antônio Britto e foi presidente do Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul, além de ter participado da fundação do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). De acordo com familiares, ele estava internado há mais de duas semanas no Hospital da Brigada Militar, em Porto Alegre.

Bona despontou para a política nos movimentos estudantis, quando ainda era aluno secundarista na Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro (EENAV), em Passo Fundo. Durante a ditadura militar de 1964, juntou-se à luta armada contra o regime e acabou preso e torturado nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Porto Alegre. Em uma entrevista dada ao jornal O Nacional, em 2012, Bona descreveu as torturas praticadas pelos militares como sendo “das mais variadas”. “Socos, chutes, pancadas, queimada com cigarro. Uma tortura que apavora e abala muito foi o choque elétrico. Fui muito torturado, inclusive, o torturador, que era major do exército, ficava junto com um médico para não deixar a gente morrer. O médico pegava no meu braço, examinava e dizia ‘pode bater que o guri aguenta’”, relatou.

Após viver um ano em prisão no Rio Grande do Sul, Bona foi libertado junto com outros 70 presos políticos, na troca pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, e precisou viver em exílio por quase uma década, passando por países como Chile, Argentina, Argélia e França. A pesquisadora Cristiane Medianeira Ávila Dias, autora da tese de doutorado “Minha terra tem horrores: o exílio dos brasileiros no Chile (1970-1973)" – que conta com contribuições do próprio Bona – destaca que, antes de ter sido banido do país, em 13 de janeiro de 1971, Bona teve ainda seus documentos apreendidos e a perda da cidadania brasileira decretada, tornando-se um “apátrida”, através da lei do banimento, prevista no Ato Institucional nº 1325 (AI-13). “O Bona foi uma das primeiras pessoas que eu entrevistei para a minha tese, em 2012, e ele me ajudou muito. Ele estava sempre disponível para auxiliar quem precisasse, compartilhando materiais e experiências. Era uma pessoa muito sensível e que acreditava que essas histórias precisavam ser contadas”, relembra Cristiane.

Quando retornou ao Brasil, em 1979, com a anistia, João Carlos Bona Garcia passou a estudar Direito e ajudou a fundar o PMDB (atual MDB) em Passo Fundo, onde concorreu ao cargo de prefeito do município. Na política, o passo-fundense também esteve à frente da Casa Civil no governo de Antônio Britto, presidiu o Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul, foi diretor do Banrisul e coordenou as finanças da campanha de José Ivo Sartori em 2014. A extensa trajetória de Bona Garcia é contada em obras como o livro “Verás que um filho teu não foge à luta” e o filme “Em teu nome”, de Paulo Nascimento.

 

Ex-governador, Pedro Simon lembra das conversas com o amigo

Apesar de ter apoiado a campanha de Sartori e de, desde o fim do bipartidarismo, ter sempre se mantido no mesmo partido político, em 2018, Bona criticou publicamente a escolha do MDB em apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro. Para ele, o presidente hoje eleito representava ideais contrários àqueles defendidos pelo MDB em sua base de fundação, como o apoio à ditadura. Uma preocupação que ainda ocupava os pensamentos de Bona, segundo o ex-governador, senador e um dos fundadores do MDB no Estado, Pedro Simon.

Simon lembra que, em uma das suas últimas conversas com o amigo de longa data, Bona seguia discutindo ideias a respeito do país. “Nós conversávamos seguido. Ele sempre tinha muitas ideias interessantes. Agora, falava muito sobre como o presidente era o chefão do país e, por isso, tinha todas as condições para fazer um belo trabalho no enfrentamento da pandemia, mas que preferia fazer um trabalho lastimável, brigando com governadores, prefeitos... Ele debatia muito essa questão, nunca deixou de lutar”, conta.

Segundo o MDB, a última aparição pública de Bona antes da pandemia foi, inclusive, no aniversário de 90 anos de Pedro Simon, comemorado em janeiro de 2020, em Capão da Canoa. O ex-governador lembra que a homenagem prestada por Bona, rememorando a época de fundação de partido e da luta desenvolvida por ambos, foi uma das mais emocionantes que recebeu durante a celebração. “O Bona Garcia é uma perda nacional. Ele foi um herói e ainda estava em pleno vapor e competência. O ideal dele era algo emocionante, ele era um grande pensador e que sempre se preocupou com seu país. Ele atuou permanentemente e teria continuado atuando. Ele ainda tinha muito a dar para o Brasil, a perda dele é uma lástima”, lamenta Simon.

O presidente do MDB em Passo Fundo, Paulo Busi de Severo, também recorda com admiração a trajetória de Bona através dos anos de luta política. “Nós mantivemos uma relação de amizade partidária de 40 anos. Ao longo desse tempo, ele sempre foi um militante político, que acreditava na política como uma solução para problemas nas comunidades e que lutava por isso”. A luta constante abraçada por Bona e relatada por Severo é, na percepção da pesquisadora e historiadora Cristiane Dias, uma demonstração do otimismo que o advogado e sociólogo carregava. “O Bona era uma pessoa muito esperançosa. Isso é uma das coisas mais importantes que ele deixa: ele acreditava no Brasil, que o país poderia se tornar um país mais igualitário. Saber que ele morreu de Covid é ainda mais triste”.

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