O fim da tarde de sábado veio acompanhado de um calor intenso. Ainda assim, a temperatura não impediu que o debate do dia acumulasse um dos maiores públicos da 27ª edição da Feira do Livro de Passo Fundo.
No palco, cinco vozes, cinco personalidades e cinco opiniões diferentes sobre a literatura. Julio Perez, poeta e contista, se colocou ao lado de Pablo Morenno - autor de Menina de Asas -, Roberto Shaan Ferreira - vencedor do Prêmio Açorianos por Por que os ponchos são negros? - Eládio Weschenfelder - professor de literatura da Universidade de Passo Fundo - e Agostinho Both - autor de romances regionalistas e estudioso do envelhecimento humano. Os cincodiscutiram a produção de ficção local e, mais que isso, abriram as portas do próprio pensamento e colocaram-se diante do público como apaixonados pela arte.
Entre os assuntos abordados pela mesa, a ficção e a escrita criativa ganharam destaque. Os cinco autores discutiram sobre a qualidade da escrita criativa e concordaram que, antes de se aventurar na literatura, é preciso pré-disposição para a escrita e leitura. “O escritor literário joga poesia no meio da literatura. Eu tenho essa visão onde a literatura é capaz de ultrapassar a realidade enquanto um autor científico explora a realidade. As descrições, mesmo que tenham o mesmo assunto, são completamente diferentes. O escritor literário já nasce assim - é talento. Claro que não basta só isso: a leitura e a escrita vem para aperfeiçoar esse talento”, argumentou Both que, em 1964, escreveu o primeiro texto literário e, hoje, se dedica, também, a artigos científicos.
Pablo Morenno, na linha de pensamento de Both, colocou que é preciso, também, paciência para perceber o texto maduro. “Na minha experiência com as escolas, eu percebo que os alunos se apavoram quando eu digo que reescrevi uma crônica dez vezes! É talento, sim, mas existem coisas que podem ser aperfeiçoadas. A gente vê textos sem significado, palavras perdidas no texto. Não é preciso escrever rebuscado, mas é preciso significado”, enfatiza. Julio Perez destacou, também, que é preciso muita técnica, de fato. “Escrever se aprende escrevendo. Algumas coisas se aprendem”, explica. Ele usa da metáfora do futebol para argumentar: “Não é preciso que todos sejam Pelé’s da escrita. Alguns podem ser Cafú’s, ou jogadores em outras posições”, coloca. Roberto Schaan Ferreira colocou a sua forma de fazer literatura: “Eu fiquei um ano escrevendo meu livro e um outro ano só revisando. Sem uma frase boa não existe um livro bom. Cada frase precisa ser revisada e é preciso começar por baixo.”, explica.
Além de discutir talento e técnica, o grupo explorou, também, a valorização do autor local. Eládio Weschenfelder colocou a iniciativa das Jornadas Literárias em abrir espaço para um Seminário de Autores Locais como importante, mas não podendo ser vista como a única opção para quem produz literatura por aqui. Pablo concorda: “Passo Fundo precisa de um prêmio municipal, só assim o autor se qualifica mais e pode, então, mostrar um pouco daquilo que faz”, opina.
Ainda que a discussão seja ilimitada e que não exista apenas uma resposta ou uma visão, Weschenfelder foi quem traduziu melhor o espírito da proposta de discussão: “Estamos no caminho e precisamos continuar escrevendo. Um 7 de setembro demora para ser proclamado, mas nossa independência está chegando”, encerrou.

