Depois de quinze anos, obra de arte é recuperada

Quadro ?EURoeMadeireiros e Construtores?EUR?, de Klenia Sanchez, havia sido coberto por uma camada de tinta depois que o edifício Irma Helena, onde a obra estava instalada, passou por uma reforma em meados de 2005

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 Os traços da pintora Klenia Sanchez, expressos na obra “Madeireiros e Construtores”, que adornavam a faixada do edifício Irma Helena entre 1980 e o começo dos anos 2000, agora ganham as paredes do auditório da Academia Passo-Fundense de Letras (APL). A obra, que retrata a saga da tradicional família Salton, ganhou um novo destino depois de ser restaurada graças à iniciativa de uma equipe de voluntários que não se conformavam com o destino final que o quadro poderia ter tido em meados de 2005. É que, à época, o edifício no qual o painel estava originalmente fixado precisou passar por uma reforma que incluía a pintura das paredes da edificação. Deteriorado devido à passagem do tempo, o quadro não despertou a sensibilidade dos condôminos, que escolheram cobri-lo com generosas camadas de tinta branca.

A obra da artista plástica, assim como o nome do edifício localizado na via que liga as ruas 15 de Novembro e Teixeira Soares, serviam de homenagem à matriarca da família Salton, Irma Helena, esposa do político e empresário passo-fundense Wolmar Salton. Originalmente composto apenas pelas cores preto e branco, o retrato conta um pedaço da saga dos Salton, chegados ao município no início do século passado. Madeireiros e construtores por origem, na obra, eles são retratados por elementos que realçam a fase histórica em que a madeira era o principal material utilizado para a construção de casas.  “No início da trajetória profissional da minha família, trabalhávamos muito com o pinho. Depois, com carrocerias de madeira e, mais à frente, a construção de casas pré-fabricadas. Algum tempo depois, como a madeira ficou escassa na região, começamos a construir casas e edifícios de alvenaria. O Irma Helena foi o terceiro edifício construído pela Wolmar Salton Incorporações. A Klenia resgatou a história desse lado empresarial da família à convite da minha própria família”, relembra Carlos Armando Salton, 70, filho de Irma e Wolmar. A obra era complementada ainda com desenhos de pinheiros, pilhas de toras de madeira, sol e pessoas, representando energia e vida.

Conforme observa o escritor e membro da APL, Gilberto Cunha, para além do aspecto artístico, o painel se tornou um objeto historicamente importante. Ele conta ter conhecido a obra ainda em 1989, quando passou a residir no edifício em questão. “Nunca tive dúvida que aquele mural era uma obra de arte singular. Havia muito da história local naquele painel, retratando uma fase da nossa história que foi fundamental para o desenvolvimento de Passo Fundo e região, que foi o ciclo da exploração da madeira”. Cunha menciona também o papel memorialístico da peça, por retrata a história familiar do empresário e político passo-fundense Wolmar Salton, que, por duas vezes, foi prefeito do município.

A saga em busca da restauração

O valor artístico e histórico da obra foram fatores fundamentais para que, ao lado dos colegas de Academia, Cunha decidisse buscar a restauração da peça, mais de três décadas depois de sua criação e cerca de quinze anos desde que ela foi praticamente apagada do edifício Irma Helena. A sentença de morte ditada à obra de arte desenvolvida em cinco chapas de madeira que escondiam o quadro de força do prédio fora decidida por convenção do condomínio. “Por ter se deteriorado, decidiram pintar por cima do quadro. Depois, em 2008, retiraram também as placas de madeira. Quando eu passei e vi que tinham pintado, enlouqueci. Como podiam cobrir uma obra de arte daquelas?”, relembra Carlos.

A reação de surpresa e lamento era compartilhada por Cunha. Inconformado com a possibilidade de ver uma manifestação artística tão importante indo parar em um contêiner de entulhos, Cunha solicitou a doação das peças de madeira, sonhando em restaurá-las. As lâminas permaneceram guardadas durante 11 anos – primeiro, na casa do acadêmico Odilon Garcez Ayres e, depois, na moradia do colega Paulo Monteiro. “Os anos foram passando e eu sempre em busca de uma maneira de remover a tinta e revelar a pintura oculta. Mas as tentativas nunca evoluíram para algo concreto. Até que, em 2019, o marceneiro Roque Gonzales Nascimento sugeriu que passássemos ácido naquelas portas e ver o que apareceria. Roque Gonzales passou uma demão de ácido nas pranchas de madeira. Ele não sabia o que procurar. Eis que, num final de tarde, ele me chamou para ver o que estava acontecendo, pois, em uma das pranchas, apareceram uns riscos estranhos”, Cunha relata, em texto que conta a saga de restauração da obra. Eram os traços remanescentes da pintura original.

Removida a camada de tinta, os voluntários procuraram a autora da obra propondo que a peça fosse restaurada. “Eu disse que precisava ver o estado para saber se dava para aproveitar. Quando eu vi os traços que restaram, achei aquilo muito pouco. Aceitei restaurar, mas decidi que poderia fazer melhor e colorir o quadro todo”. Com o apoio do marceneiro Roque Gonzales, Klenia passou a trabalhar de maneira intensiva na recriação da antiga pintura. O processo aconteceu na biblioteca da APL e durou 28 dias. “Não preciso nem dizer o quanto fiquei feliz com o convite. Eu pensei que nunca mais haveria aquela peça”, conta a pintora.

Novo destino

Materializada em um mural de 4m x 2m e quase 200 kg, no último domingo (20), a obra foi colocada, com o apoio de 12 voluntários e membros da APL, no auditório da academia. A escolha pelo local, segundo Cunha, deve-se ao trabalho desenvolvido pela instituição em prol da cultura. “Além do aspecto artístico de embelezamento do ambiente acadêmico, o senso de preservação e disponibilização à visitação pública dessa obra pesou na decisão. Com certeza, lá no auditório da APL, essa obra será doravante preservada”.

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