As sucessivas chuvas registradas desde o início da safra de inverno vêm impondo desafios cada vez maiores aos produtores rurais da região de Passo Fundo. Além de prejudicar o desenvolvimento das lavouras de trigo e canola, o excesso de umidade elevou os custos de produção, favoreceu o surgimento de doenças e provocou um dos danos considerados mais preocupantes pelos técnicos: a perda da camada mais fértil do solo.
O cenário foi agravado pelo temporal com granizo registrado na última semana, que atingiu diversos municípios da região e causou perdas totais em áreas cultivadas, principalmente de canola. Equipes da Emater/RS-Ascar seguem realizando levantamentos para dimensionar os prejuízos, mas os impactos já são considerados expressivos.
Segundo o gerente regional da Emater, Oriberto Adami, as condições climáticas têm sido desfavoráveis praticamente desde a implantação das culturas de inverno. Conforme ele, o elevado volume de chuva compromete o desenvolvimento das plantas e aumenta a preocupação dos agricultores a cada nova previsão de instabilidade.
Trigo enfrenta dificuldades desde o início da safra
No trigo, que atualmente se encontra entre as fases de desenvolvimento vegetativo e afilhamento, o principal problema é a dificuldade de aproveitamento do nitrogênio aplicado em cobertura, nutriente essencial para o crescimento da cultura.
De acordo com Oriberto Adami, por ser altamente solúvel, o nitrogênio sofre lixiviação em períodos de chuva intensa, sendo carregado para camadas mais profundas do solo, onde as raízes não conseguem absorvê-lo adequadamente. Como consequência, as plantas apresentam menor desenvolvimento e, em muitos casos, o produtor precisa reaplicar o fertilizante, elevando os custos de produção. Segundo o gerente da Emater, essa situação preocupa ainda mais diante da expectativa de baixa rentabilidade para o trigo nesta safra.
Apesar das dificuldades, ele ressalta que parte das lavouras ainda apresenta potencial de recuperação, especialmente aquelas localizadas em áreas mais altas e com melhor drenagem. No entanto, essa recuperação dependerá da normalização do regime de chuvas nas próximas semanas.
Canola apresenta cenários distintos
Na canola, o comportamento das lavouras varia conforme a época de semeadura. As áreas plantadas no início de maio apresentam bom potencial produtivo e já estão em floração. Mesmo sob excesso de chuva, essas lavouras ainda mantêm boas perspectivas de rendimento.
Já as áreas implantadas mais tardiamente sofreram impactos mais severos. Conforme a Emater, muitas enfrentaram problemas de germinação devido ao excesso de umidade e, em diversos casos, houve erosão com o arraste das sementes antes mesmo do estabelecimento das plantas. Embora representem uma parcela menor da área cultivada, essas lavouras registram perdas significativas e comprometem parte da produção esperada.
Umidade favorece doenças
Além das perdas já observadas, a Emater alerta para outro desafio nas próximas fases do ciclo do trigo. Segundo Oriberto Adami, a combinação de alta umidade e temperaturas mais elevadas cria condições favoráveis para o desenvolvimento de doenças fúngicas, como a giberela, que compromete tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos.
Outro problema é a dificuldade de realizar as aplicações preventivas de fungicidas. Em períodos de chuva constante, muitas propriedades não conseguem colocar máquinas nas lavouras no momento adequado, o que pode ampliar ainda mais os prejuízos.
Erosão provoca prejuízos de longo prazo
Entre todos os impactos causados pelas chuvas, Oriberto Adami destaca que a perda de solo é, possivelmente, a consequência mais grave e duradoura.
Segundo ele, o grande volume de água remove a camada superficial do solo, onde se concentra a maior parte da matéria orgânica e dos nutrientes essenciais ao desenvolvimento das culturas. Esse material é transportado para córregos e rios, contribuindo para o assoreamento e comprometendo também a qualidade da água. A recuperação dessa fertilidade natural exige anos de trabalho e investimentos.
O gerente regional ressalta, entretanto, que propriedades que adotam práticas conservacionistas apresentaram resultados muito melhores. Áreas mantidas com cobertura vegetal após a colheita da soja, utilizando espécies como nabo forrageiro, aveia e outras plantas de cobertura, sofreram muito menos erosão do que aquelas deixadas em pousio, com o solo exposto à ação das chuvas.
Granizo agravou os prejuízos
Além do excesso de precipitação, o temporal acompanhado de granizo registrado na última semana intensificou os danos em diversos municípios da região, especialmente em Não-Me-Toque, Lagoa dos Três Cantos, Ernestina, Tapera e Ibirubá. Também houve registros pontuais em Passo Fundo e David Canabarro.
Conforme Oriberto Adami, nas áreas mais atingidas pelo granizo as perdas foram totais, principalmente nas lavouras de canola que estavam em floração ou iniciando a formação das vagens, estágio em que praticamente não há possibilidade de recuperação.
No trigo também foram registrados prejuízos, embora a cultura ainda apresente alguma capacidade de regeneração, dependendo das condições climáticas nas próximas semanas.
Os levantamentos técnicos continuam sendo realizados para dimensionar os danos provocados pelo temporal. No entanto, Oriberto Adami ressalta que os efeitos do excesso de chuva sobre a produtividade somente poderão ser quantificados com maior precisão nas fases finais do ciclo das culturas e, principalmente, durante a colheita. Até lá, a expectativa dos produtores é de que o clima apresente maior estabilidade, reduzindo os riscos para as lavouras de inverno e evitando novos prejuízos ao campo.



