Defesa Civil fortalece ações de prevenção diante de eventos extremos

Após a devastação causada por um tornado no Paraná, município destaca estrutura técnica e tecnológica que permite acompanhar, em tempo real, as condições do tempo e agir de forma preventiva diante dos riscos

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Estações Meteorológicas Plugstation passaram a operar em março deste ano - Fotos: Michel Sanderi  Estações Meteorológicas Plugstation passaram a operar em março deste ano - Fotos: Michel Sanderi
Estações Meteorológicas Plugstation passaram a operar em março deste ano - Fotos: Michel Sanderi
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O Sul do Brasil voltou a enfrentar o impacto severo de eventos climáticos extremos. Na sexta-feira (7), um tornado atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, destruindo cerca de 90% da cidade e deixando seis mortos, além de dezenas de feridos e centenas de desabrigados. Em Passo Fundo, a Defesa Civil Municipal registrou duas ocorrências de destelhamento de casas, quatro casos de entrada de água em residências — devido a calhas entupidas e goteiras — e oito quedas de árvores em vias públicas.

O fenômeno reforçou o alerta sobre a importância do monitoramento constante das condições do tempo e da preparação das cidades diante de tempestades, ventos fortes e enchentes, um desafio que Passo Fundo vem enfrentando com base em tecnologia e planejamento.

O geógrafo e mestre em climatologia Vagner Apollo Duarte, que integra a Defesa Civil e a Secretaria de Planejamento (SEPLAN), explica que Passo Fundo está inserida em uma rede de monitoramento mais ampla, que abrange todo o Sul do país. “O Rio Grande do Sul é coberto por três radares meteorológicos, em Santiago, Canguçu e no Morro da Igreja, em Santa Catarina. Esses equipamentos monitoram a movimentação da atmosfera e ajudam a identificar tempestades, frentes frias e ventos intensos, que muitas vezes se formam a centenas de quilômetros de distância”, detalha.

Alertas

As previsões e alertas oficiais são elaborados por órgãos nacionais, como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE). “Em Passo Fundo, nossas estações não têm a função de prever o tempo, mas de registrar informações que alimentam séries históricas e subsidiam estudos e planejamentos futuros. São dados valiosos para entender como o clima local está mudando e como isso afeta o cotidiano da cidade”, afirma Vagner.

Além das estações automáticas, o município conta com uma estação meteorológica convencional da Embrapa e CEMADEN, que faz parte da rede nacional do INMET. Os dados obtidos em Passo Fundo, portanto, contribuem diretamente para as previsões meteorológicas nacionais e para a emissão de alertas sobre tempestades e fenômenos severos. “O clima está mudando, e a nossa resposta precisa ser cada vez mais inteligente. O monitoramento e o planejamento não são apenas medidas técnicas — são estratégias para proteger vidas e construir um futuro mais seguro”, conclui o geógrafo.

Rede de monitoramento

Considerando os desafios impostos pelas mudanças climáticas e seus impactos sobre a sociedade, a Defesa Civil Municipal adquiriu, em dezembro de 2024, 12 estações meteorológicas Plugstation WS22, que passaram a operar em março deste ano. O sistema integra uma rede de monitoramento em tempo real, administrada pela Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (COMPDEC), que hoje conta com 80 integrantes distribuídos entre os setores técnico e operacional.

De acordo com o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, Fernando Carlos Bicca, as estações foram instaladas de forma estratégica para garantir cobertura integral do território. “Oito estações estão na zona rural, formando um anel em torno do município, e quatro estão na área urbana, localizadas nos bairros Entre Rios, Victor Issler, Manoel Portela e Centro. Elas registram dados fundamentais para entendermos o comportamento do clima local e seus impactos sobre a população”, explica.

Bicca destaca que as informações captadas são precisas e atualizadas constantemente. “Os equipamentos nos fornecem dados sobre umidade, precipitação, rajadas e direção do vento, pressão atmosférica, níveis de rios e até índices de CO₂. Com base nesses registros, conseguimos criar alertas rápidos e definir protocolos de ação imediata, o que faz diferença quando lidamos com alagamentos, inundações ou risco de deslizamento”, pontua.

Atualmente, Passo Fundo conta também com duas estações meteorológicas privadas, localizadas na Vila Mattos e no Bairro Boqueirão, que são monitoradas em tempo real pela equipe da Defesa Civil, sob licença. A COMPDEC ainda avalia informações de outros equipamentos públicos e privados, incluindo a rede de pluviômetros automáticos do CEMADEN, ampliando a base de dados climáticos locais.

Monitoramento do Rio Passo Fundo

Duas das estações municipais foram instaladas às margens do Rio Passo Fundo, em áreas historicamente afetadas por inundações. A medida tem permitido acompanhar o nível do rio em tempo real, sem necessidade de observação presencial, o que agiliza a tomada de decisões em períodos de chuva intensa. “Hoje conseguimos estimar o impacto de determinado volume de chuva nas áreas de risco. Durante as chuvas intensas de 29 e 30 de junho deste ano, por exemplo, registramos 151,7 mm em 24 horas, o que elevou o nível do rio a 2,44 metros, mas sem atingir as famílias residentes nas margens. Foi a primeira vez que conseguimos basear nossas ações em dados concretos, e não apenas em observações empíricas”, explica Bicca.

O coordenador afirma que esses registros permitiram definir cotas de referência para os alertas e alarmes automáticos: os alertas serão emitidos quando o nível atingir 2,70 metros, e as sirenes sonoras, integradas aos equipamentos, serão acionadas a partir de 3 metros. “Desde a instalação, os alarmes não precisaram ser acionados. Os alertas hoje são divulgados por meio da imprensa local, das redes sociais da Prefeitura e também pela Coordenadoria das Associações de Bairros e da UAMPAF, garantindo que a informação chegue rapidamente aos presidentes de bairro e à população”, destaca Bicca.

Informações abertas e uso acadêmico

O sistema de monitoramento climático de Passo Fundo é transparente e acessível ao público. Os dados estão disponíveis no site da Prefeitura e também são compartilhados com instituições de ensino e pesquisa. “Um grupo consultor multidisciplinar acompanha as informações coletadas e analisa os efeitos dos fenômenos meteorológicos. Essa base tem sido usada em estudos acadêmicos e no planejamento urbano e ambiental do município. A ciência e a gestão pública trabalham juntas”, observa Bicca.

O coordenador reforça que o objetivo central do sistema é antecipar riscos, proteger vidas e fundamentar decisões estratégicas em evidências. “Hoje, nossas ações preventivas, mitigadoras e de apoio às comunidades vulneráveis são definidas com base em dados técnicos, o que aumenta a eficiência e a segurança da nossa atuação”, frisa.

Capacitação e cultura de prevenção

Além da estrutura tecnológica, a Defesa Civil está promovendo, nesta semana de 12 a 14 de novembro, a Capacitação de Agentes Públicos Municipais em Mapeamento de Riscos em Encostas e Margens de Rios, parte do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR). A formação reúne cerca de 50 participantes e será ministrada por engenheiros, geólogos e técnicos da Prefeitura, com certificação da Escola de Gestão Pública Passo-fundense. “Capacitar as equipes é tão importante quanto investir em equipamentos. A cultura de prevenção começa pela formação e pelo conhecimento técnico”, ressalta Bicca.

O PMRR, que está em elaboração, vai orientar as ações preventivas e mitigadoras do município, fortalecendo o compromisso de Passo Fundo com uma gestão pública baseada em dados, ciência e responsabilidade ambiental.

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