OPINIÃO

O homem que plantava árvores

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Um dos textos ícones do movimento ambientalista mundial é o clássico “O homem que plantava árvores”. Nessa obra, de 1953, originalmente intitulada “L’homme qui plantait des arbres”, o romancista francês Jean Giono (1895-1970) retratou, por intermédio do trabalho do personagem Elzéard Bouffier, a recuperação ambiental, via florestamento, da região de Provença, que não por acaso é a terra natal do escritor.

A força do texto de Jean Giono, que foi internacionalmente divulgado por grupos ambientalistas nos anos 1970, ganhando traduções para vários idiomas, faz com que muita gente, ainda hoje, pense que o pastor Elzéard Bouffier, vivendo isolado nas montanhas, após a morte da mulher e do único filho, em meio a cabras e colmeias de abelhas, selecionando sementes e plantando árvores, sem qualquer preocupação de quem eram aquelas terras, na primeira metade do século XX, até a sua morte, aos 87 anos, em um asilo, em 1947, realmente existiu.

Giono, que se traveste de narrador da história, inúmeras vezes teve de publicamente esclarecer que Elzéard Bouffier nunca passou de um personagem criado por ele. Mas, em tempos de negacionimos e de (certa) desesperança ambientalista, vale a releitura do texto de Giono ou assistir a história em vídeo.

A história de Elzéard Bouffier, no Brasil, pode ser encontrada em livro, entre outras edições de “O homem que plantava árvores”, no lançamento de 2018, pela Editora 34, com tradução de Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr., ou assistido em vídeo. A edição, com ilustrações do cartunista Santiago e apresentação ensaística assinada por Celso Marques, prometida para ser lançada em 2012, no marco das comemorações do aniversário da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), eu nunca consegui localizar. Talvez seja uma raridade na mão de afortunados bibliófilos. A Agapan, entidade pioneira do gênero no Brasil, foi fundada em Porto Alegre, em 1971, por José Lutzenberger, Augusto Carneiro, Caio Lustosa, Flávio Lewgoy, Sebastião Pinheiro, Hilda Zimmermann, Giselda Castro, Magda Renner e outros ecologistas militantes no RS na época.

O filme a que me refiro, com narração em francês e legendas em português, pode ser livremente acessado no Youtube e, tanto pela plástica das imagens quanto pela qualidade da mensagem, é considerado por muitos, em todos os sentidos, como uma verdadeira obra-prima.

Jean Giono, na minha visão, foi muito feliz ao retratar, pelo caminho da literatura, e frise-se antes mesmo do conceito ter sido criado, o funcionamento do sistema climático. Tratou, indiretamente ou nem tanto, da intervenção humana, para o bem e para o mal, na mudança do espaço físico, a influência do comportamento das pessoas, o papel da preservação/recuperação ambiental na regulação do clima e as possibilidades de exploração econômica das paisagens, passando pela história europeia dos primeiros 50 anos do século XX, e sem deixar de lado as duas Grandes Guerras.

No final dos anos 1980, mais do que o conceito convencional de clima, definido pela geografia como o conjunto das variáveis meteorológicas que caracteriza o estado médio da atmosfera em um determinado ponto da superfície terrestre, ganhou força o conceito de sistema climático global, que envolve, além da atmosfera, também os oceanos e a superfície das terras e o seu uso. Indubitavelmente, a interação entre os processos que acontecem na atmosfera, nos oceanos e na superfície da terra, causa impactos no clima global.

Entender a mudança e a variabilidade do clima global e suas interações com a atividade humana, não prescinde da compreensão do sistema climático global e suas funcionalidades. E, para isso, a ficção de Giono pode ser um bom começo.

Discutir criticamente esse filme (30 minutos de duração), em sala de aula ou em qualquer outro espaço, embora ciente de que se trata de uma peça de ficção, não creio que seja apenas uma desmesurada sugestão do colunista. Assista ao vídeo, pelo menos, antes de tecer qualquer juízo de valor!


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