OPINIÃO

Chico da Matilde, o Dragão do Mar

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O historiador Lucínio Nunes, ao realizar as pesquisas de campo, pôs sua crença e coragem numa busca persistente para encontrar referências sobre o herói nordestino da libertação de escravos. Seu trabalho vem balizado pela credibilidade dos estudos da Universidade da Flórida, dos USA. A informação recente sobre o resultado das investigações circula há vários dias nos meios universitários mundiais. Lucínio acaba de encontrar, no cemitério São João Batista, de Fortaleza, o túmulo de Francisco José do Nascimento, - o “Chico da Matilde”, filho do casal de pescadores cearenses, Manuel do Nascimento e Matilde Marques da Conceição. Até o final do século 19, a costa brasileira era utilizada para o tráfico de escravos, mesmo após a proibição da traficância, prestes a alvorecer o 13 de maior de 1888. O comércio criminoso de vidas humanas era feito por meio de jangadas, pelo oceano Atlântico. O líder Francisco José era conhecido como “Dragão do Mar”, por sua generosa militância na causa da libertação dos escravos. Foi ele que deflagrou o grito solene, em 1883, declarando livres os escravos cearenses, à revelia dos mandos oficiais do Império. O pacto selado com José do Patrocínio (o Tigre da Abolição) foi em 1º de janeiro do mesmo ano, em sincronia com todos os movimentos de libertação do Brasil. Neste dia foram alforriados 116 escravos. A partir de 1884 todos os jangadeiros recusaram-se a transportar escravizados. A greve do porto foi iniciada por Pedro Artur de Vasconcellos. Foi um baque frontal à oligarquia escravista.

Três séculos

Sem dúvida, foram muitas as inciativas que partilharam a mais sagrada luta dos filhos de Deus e da Pátria, pela abolição da escravidão. A Foram três séculos de sangue, pressões cruéis, torturas, assassinatos no genocídio da submissão de escravizados. O sangue e o suor do negro regaram o chão deste país que se diz entre as maiores nações do mundo. O gesto intimorato do “Dragão dos Mares” foi mais um grito heroico da mais genuína e justa resistência desta Pátria. É neste sentido que o êxito do historiador Lucínio, após vasculhar mais de 15 mil sepulturas no cemitério de Fortaleza, além de inúmeras buscas na literatura, consagra a memória no túmulo do “Chico da Matilde”, verdadeiro almirante libertador, “O Dragão do Mar”, sepultado em 1914, no cemitério São João Batista. O resgate desta memória é o justo revide ao menosprezo histórico da elite dominante entregue aos propósitos dos negacionistas que querem o esquecimento dos verdadeiros heróis libertários, na mais verdadeira revolução do país. Eventos como este, reencontrado o jazigo, e dados reconhecidos de verdadeiros heróis da Pátria, valorizam a decência de nossa história e dos pesquisadores. Ai do povo carente do conhecimento sobre sua vida existencial. São raízes de valores autênticos da nação que não podem ser relegados.

A injusta versão

A revelação de memórias históricas não é supressão da realidade. A revisão alcançada pela pesquisa de resgate atribui verdade da memória para exaltar verdadeiras inspirações humanas. As injustas versões tem destacado famigerados bandeirantes que pela memorização inadequado são preservados como nomes eméritos. São, no entanto, referências assassinas que semearam o horror nos sertões, matando covardemente nativos e escravizando índios e negros. Discute-se no mundo o movimento pela derrubada das estátuas do sanguinário Borba Gato, estátuas de criminosos racistas na Inglaterra e USA, incluindo-se o repúdio que fez desabar o monumento a Joseph Stalin, na Rússia. Não se trata de apagar o registro dessas figuras, mas evitar a narrativa perversa que erige essas personalidades a referências de liderança social. Já se pensa em recolher dos espaços públicos a alusão a exemplares da perversidade. Por outro lado, é necessário destacar valores para a humanidade, como foi “O Dragão dos Mares”, defensor da liberdade e da dignidade humana. 

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