Alguém já disse que, hoje, no Brasil, parece não existir uma direita democrática. Partidos e organizações intitulados como liberais, apesar do nome, não seguem uma ideologia que possa ser chamada de liberal. Adotam posições que se assemelham muito mais a partidos de extrema-direita. São essencialmente antiesquerda, mesmo que essa se comporte respeitando os princípios e instituições liberais. Curiosamente estamos assistindo um governo de esquerda defendendo nossa democracia liberal enquanto os ditos liberais atacam-na. Não percebem ou não querem aceitar que todas as democracias liberais exigem partidos e movimentos políticos de direita e de esquerda. Só assim se estabelece um equilíbrio funcional entre liberdade e igualdade.
O LIBERALISMO É UM PROCESSO DE CIVILIZAÇÃO
Ralph Dahrendorf (1929-2009), no livro “Reflexões sobre a Revolução na Europa”, em que ele trata dos movimentos que levaram ao fim dos regimes comunistas europeus, afirma que “o homem não é liberal por natureza”. O liberalismo é um processo de civilização. O homem e a mulher devem civilizar-se para chegar a ser liberais. A ser assim, nossos liberais não são civilizados? Será por isso que muitos deles planejaram um golpe de Estado com o objetivo de anular eleições presidenciais democráticas e instalar uma ditadura militar?
NOSSA DETERIORAÇÃO ÉTICA
Parece inegável que nossa realidade contemporânea mostra uma deterioração dos padrões de convivência civilizada em nosso país. Vi no dia de hoje, dia em que estou escrevendo essa coluna, um exemplo dessa deterioração. Estava na garagem de um supermercado. Havia poucos lugares para estacionar. Um lugar vago próximo a entrada do mercado era exclusivo para cadeirantes. Um carro se aproximou. Fiquei observando. Ele estacionou nessa vaga, mas quem desceu do automóvel foi um casal sem deficiência física. A deficiência, nesse caso, é ética, civilizacional.
O PARADOXO DO BRASILEIRO
Eduardo Giannetti da Fonseca, no livro “Vícios privados, benefícios públicos: a ética na riqueza das nações”, mostra o papel decisivo que as virtudes privadas desempenham para a vida comunitária e o progresso das nações. O Brasil vive uma situação que ele chamou de “paradoxo do brasileiro”. Cada um de nós isoladamente tem o sentimento e a crença sincera de estar acima de tudo isso que aí está. Ninguém aceita e aguenta: nenhum de nós pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha de nossa vida pública e comunitária. Ao mesmo tempo, no entanto, o resultado final de todos nós juntos é praticamente tudo isso que aí está. A autoimagem de que cada um de nós gosta de nutrir de si mesmo não bate com a realidade do todo melancólico e exasperador chamado Brasil.
Cada um de nós, aos nossos próprios olhos, é bom, progressista e até gostaríamos de dar um jeito no país. Mas enquanto clamamos pela justiça e eficiência, enquanto sonhamos, cada em sua ilha, com um lugar no Primeiro Mundo, vamos tropeçando coletivamente, como sonâmbulos embriagados, numa sociedade de baixa eficiência e com um déficit muito grande de justiça social. O brasileiro é sempre o outro, não eu.

