Expus na coluna da semana passada o que Eduardo Giannetti da Fonseca chamou de “paradoxo do brasileiro”. Trata-se do fato de que ninguém de nós parece aceitar e aguentar o mar de lama, o deboche e a vergonha de nossa vida pública e comunitária. No entanto, o resultado final de todos nós juntos é praticamente tudo isso que aí está. Esse paradoxo evidencia uma deterioração dos padrões de convivência civilizada em nosso país. Giannetti, no livro “Vícios privados, benefícios públicos: a ética na riqueza das nações”, procura mostrar o papel decisivo que as virtudes privadas e a moralidade cívica desempenham na sobrevivência comunitária e no grau de coesão social.
Ruas sujas e sem crianças
Aqui onde moro (Porto Alegre, bairro Tristeza) as ruas são sujas, as calçadas irregulares, exigindo cuidados ao andar por elas, e não se vê crianças e jovens brincando nelas. Morei em Porto Alegre dos 10 aos meus 22 anos. Quando não estava na escola, vivia na rua brincando com os amigos. Os brinquedos eram os mais variados e criativos: jogo com bola de meia, esconde-esconde, pega ladrão, jogo de taco, que era uma espécie de baseball, etc. Minha mãe, mais de uma vez, comentava como eu era “rueiro”. Nossas ruas estão sujas porque nós as sujamos. Não há administração municipal que consiga manter as ruas limpas quando nós insistimos em sujá-las. As crianças e os jovens não brincam mais nas ruas por causa da insegurança e agora também por causa dos celulares e das mídias sociais. Que bom que no meu tempo de criança e adolescência isso não existia!
Casas engaioladas
Todas as casas são gradeadas. Além de sistemas de alarme, contratos caros com empresas de vigilância, muitas usam a chamada “concertina de arame farpado”, coisa que só se via no cinema em campos de concentração e em presídios. O neto de um de meus irmãos mora no Canadá. Quando esteve aqui perguntou espantado: “vô, por que você mora dentro de uma gaiola?”
O Brasil é mais perigoso do que a Ucrânia
Acredite se quiser: acabo de ler que o Brasil é mais perigoso do que a Ucrânia, segundo um relatório da organização ACLED (Armed Conflict Location and Event Data). Fiz uma rápida pesquisa. Segundo dados do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o Brasil registrou 38.075 pessoas assassinadas em 2024. Em média, 106 pessoas morrem de forma violenta todos os dias em nosso país. Segundo o site “Mundo ao Minuto”, desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, pelos menos 13.279 civis, incluindo 707 crianças, foram mortos.
Nossas Mazelas
Todos nós temos conhecimento das nossas falhas morais e sociais. Segundo a IPSOS (Institut Public de Sondage d'Opinion Secteur), uma das maiores e mais conceituadas agências de pesquisa do mundo, sete em cada dez pessoas no Brasil concordam que a desigualdade é o problema mais crucial ou um dos mais importantes enfrentados pelo país. No topo do ranking da desigualdade estão Indonésia (79%), Brasil (74%), Colômbia, Turquia e Tailândia, todos com 70%, e África do Sul (69%). Enquanto Holanda (32%), Canadá (35%) e Polônia (35%) apresentam os menores índices. Esses dados fazem parte da pesquisa "Equalities Index 2024".
Enfim, todos vemos a miséria em nosso país, pedintes nas sinaleiras, gente dormindo nas ruas, insegurança, corrupção, impunidade, deterioração do ensino básico. Ferocidade verbal, intenções generosas e sentimentos calorosos sempre tivemos de sobra. No entanto, a realidade segue seu curso no contrafluxo de tudo isso.” Atenção! Giannetti escreveu isso em 1993, portanto há mais de trinta anos!
LUZ NA CAVERNA
Eduardo Giannetti da Fonseca. Vícios privados, benefícios públicos?: a ética na riqueza das nações. Companhia das Letras, 1993.
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