OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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Lembro-me que no recente discurso proferido por Lula nas Nações Unidas, fui interpelado por um jornalista. Ele queria saber qual teria sido a afirmação mais desastrosa ou infeliz. Na contracorrente de muitos analistas, disse de pronto que, fora justamente o fato de Lula ter evitado o debate sobre o crime organizado, que avança pelas estruturas do Brasil. Chegou a ser enfático, enquanto discursava, de que não poder-se-ia igualar criminosos com terroristas. Daí depreendem-se muitas variáveis. A título de exemplo, os EUA passaram a designar organizações criminosas como terroristas, não ficando apenas na narrativa, senão, em um de seus maiores deslocamentos militares nas águas internacionais do Caribe, cuja ponta do iceberg é o tráfico internacional de drogas, seguido dos cartéis e ditadores e até mesmo a demonstração cabal de que a América Latina não será mais um quintal russo-chinês. 

Operação interna

Nos últimos dias o Rio de Janeiro foi palco internacional de uma grande operação contra o crime organizado, com missões diplomáticas aconselhando os seus nativos a não permanecerem no Rio. Denominada de “Operação Contenção”, a mesma transcorreu nos Complexos do Alemão e da Penha, com presença massiva de agentes, que visavam debelar operações do Comando Vermelho, para alguns uma facção, para este colunista uma organização terrorista. Devemos levar em conta que o crime organizado possui inclusive, armas mais avançadas tecnologicamente, do que as próprias Forças Armadas.

Narcoestado

Há uma miríade de discussões sobre o Brasil, ser ou não, um potencial narcoestado. Um professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rafael Alcadipani, recentemente alertou em pesquisa, a profunda penetração do crime organizado em diferentes instâncias do poder, como mesmo disse: “a gente vê que nas últimas eleições municipais, tem investigações que mostram a influência brutal do crime organizado nas eleições municipais. No mundo da segurança pública, se comenta muito amiúde de prefeituras que são dominadas, de câmaras municipais, de parlamentares. Não é que virou um narcoestado, mas a gente está caminhando a passos largos para isso. A infiltração do crime na sociedade e no Estado brasileiro é muito séria. Eu sempre digo: para mim, a maior ameaça à democracia brasileira é a presença do crime organizado. Existem tentáculos muito fortes nos três poderes e se não prestarmos atenção, o Brasil vai virar um narcoestado…”

“Governança Criminal”

Uma recente pesquisa da Universidade de Cambridge traz um conceito interessante: “governança criminal” – que seriam as pessoas que, de alguma forma ou outra, estão sob o guarda-chuva de regras de crimes organizados (mesmo que não peguem em armas). O Estudo faz uma radiografia da América Latina e aponta que no Brasil, 26% da população estaria abaixo de uma governança criminal (o que seriam aproximadamente 50 milhões de pessoas). Se o Brasil andar nesses passos, não tratando criminosos como terroristas, em breve teremos uma narcoestado, quem sabe na mira dos EUA, pois, talvez, só iremos acreditar que há uma guerra interna no país, por um aliado externo, enquanto muitos tapam os olhos. O Presidente de El Salvador foi enfático em uma de suas manifestações: a única forma de guerrear contra o crime organizado é tirando ele de dentro do próprio governo. Mas talvez seja tarde. 

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