Por algum mistério da psicoproctologia, minha próstata calhou em sincronizar com o fim de expediente da boate à qual disponho varanda com vista indefasável. De modo que já firmei como hábito, depois de conceder aos chiliques da minha bexiga, vasculhar em tocaia o comportamento dos jovens do momento na alvorada de seus excessos.
Nada é mais rejuvenescedor para um sujeito às vésperas dos 50 anos do que um desjejum rico em fibras solúveis, na companhia táctica das delinquências juvenis. É como ir ao Batatas — mas com direito a cevada em grãos e toilette privativo.
Serve também para verificar padrões análogos aos da minha época de sapatos Ferracini e falsetes do Rogério Flausino, flanando sem prumo pela pista da Oppium Place. Mas, tirante a moda ser cíclica e de o Jota Quest ser eterno, tudo me parece estranho aqui do alto dos meus anos e do meu prédio.
Como meu empirismo sociológico cobre apenas as breves interações epílogas de calçada, posso afirmar que saem quase todos numa civilidade de fábrica: ordenados e reflexivos.
Nenhum vizinho reclama de barulho; eu quase reclamo do silêncio.
Nada de catarses musicais esganiçadas pela aurora efêmera de mais um dia. Então a memória me escapa ao instante em que o Roberson Azambuja, performando no auge de seu penteado inabalável, rasgou sua comanda de altas cifras ao refrão entusiasmado de “nós não vamos pagar nada, lá lá lá lá...” — e não pagou mesmo.
Apesar de uma madrugada inteira de corpos rentes e animados, também não se notam sintomas de libidos embriagadas, de romances paliativos ou de encantamentos sintéticos de metilenodioximetanfetamina. No Parque da Gare, outros já surgem aos bandos, em seus trajes em cores espalhafatosas e relógios inteligentes, prontos para mais uma minimaratona anticomorbidades com apoio das Farmácias São João.
Então percebo o quanto se esgarçou o antigo dogma que fazia do sexo compulsório e do álcool compulsivo a essência de todas as relações de convívio. Hoje, os indicadores apontam queda brusca no consumo alcoólico e uma curiosa depreciação da fornicação no ranking de prioridades de bem-estar entre os jovens, já restando abaixo de práticas como exercícios físicos, jornadas de streaming, interações digitais e o soninho reparador. Ou seja: as atividades de coito atraem menos entusiastas do que as histórias de zumbis carismáticos e dramas hospitalares que alternam fraturas expostas com corações partidos.
Talvez porque o excesso de interações digitais prejudique as dinâmicas eróticas e afetivas. Os pictogramas traduzem sentimentos legítimos pelo semblante infantil de um avatar amarelo, e os desejos são sugeridos através de simulacros de hortifrutigranjeiros. É uma comunicação que dispensa o tempo das hipérboles — além de vulgarizar as propriedades antioxidantes da berinjela e seus benefícios para o controle do colesterol ruim.
Lembro da clássica Tenteada da Saideira — a arrojada manobra de flerte que o Nicola Giordano se forjou mestre às portas da boate Millenium. Depois observo um vulto de resignados perfilados diante do trailer de lanches, à espera de um último afago que lhes console o estômago e as papilas gustativas. Alguém grita em protesto pela falta de maionese. Outro se transtorna com a parca quantidade de bacon no sanduíche. Um bate-boca generalizado por pouco não termina em pancadaria.
Essa juventude realmente não respeita limites quando o assunto se trata de refinados, condimentos e embutidos.
*
Algumas considerações sobre meu regresso a este jornal. Cito meu pai, cuja persistência fez deste papel páginas centenárias, além de valorizar muito a meritocracia hereditária.
Ao Seu Schneider, meu primeiro editor e responsável por fazer do hábito um ofício.
Ao Paulo Caruso, que me fez colunista da versão relançada de O Pasquim.
E ao Ziraldo, que me fez seu editor-adjunto e depois colunista do Caderno B, do Jornal do Brasil.
Tanto Paulo quanto Ziraldo faleceram sem que pudesse me despedir de jeito decente.
Por esse motivo, não voltei para O Nacional; voltei para enterrar o Schneider mesmo.
·
Deixo, por fim, um carinho póstumo em memória da Dra. Adriana Petter, minha psicanalista, cujas palavras de analgesia sempre serviram de enorme efeito e alívio.

