Fim de tarde; Boka vazio. Meu pai me espera no salão ao fundo, para onde ele e os amigos migraram em algum momento incerto dos vinte anos em que estive fora. Procuro pelo Alexandre ou Toninho — nada. Deixo o olhar distraído até sobressaltar com o atrapalho da contraluz. A silhueta não bate, e o corte rente que precipita calvície tampouco combina com os restos de mullet — mas, ainda assim, receio ter visto o Edu. É o Dani, que percebe meu lapso com um semblante bonito. A confusão se explica pelo colete azul que ele veste — herança do espólio afetivo do chefe e amigo.
Edu foi um grande amigo. Pendurei muitas contas ali e ainda saía com uns trocados do caixa. Foi meu maior confidente antes de eu mudar para o Rio. Madrugadas de café, risadas, portas cerradas e o salão vazio recendendo a tabaco — tudo tão vivo; exceto pelo resto que falta.
A TV não exibe futebol. Mostra o jornalista Augusto Nunes. A chegada do Chiquinho Biancini reforça em mim o absurdo da ausência do Edu naquele cenário. Tudo parece estranho — inclusive ver o Augusto pela segunda vez na semana. Dias antes, ele surgira num post de um amigo. A legenda o exaltava como referência do pensamento conservador. Meu amigo sorria na foto. Pensei se ele estranharia do mesmo modo se me visse abraçado ao Caiado.
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Devo muito ao Augusto. Fui grande admirador de seu texto. Sua biografia de Samuel Wainer me marcara na adolescência; na faculdade, entendi que era bibliografia obrigatória. Receio que não seja mais.
Quando cheguei ao Rio, ele era Diretor de Jornalismo do Jornal do Brasil. Mudei com o delírio de um dia assinar coluna ali. O Zuenir Ventura articulou um encontro com Artur Xexéo, então editor do Segundo Caderno de O Globo. Foi nesse contexto que fiz chegar aos ouvidos do Augusto uma pretensiosa disposição em ouvi-lo antes de qualquer decisão definitiva para um convite que sequer existia. Ele topou exercer a esdrúxula cláusula de prioridade inventada. O JB me enviou pra cá, para cobrir minha única Jornada Nacional de Literatura. Não lembro de Xexéo reclamar minha falta.
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Augusto tinha um texto tão brilhante quanto violento. Eu vinha de um semanário de humor que fazia parecido, divergindo apenas em antipatias e abordagens. No mais, era sobrinho de um jornalista que, ao lembrar que Tancredo herdara a caneta de Getúlio, lamentou que não tivesse herdado a pistola. Antes, meu avô e Túlio Fontoura travaram batalha editorial de forte carga personalista nas páginas do Diário da Manhã e de O Nacional — à revelia da admiração mútua que se dizia. Recordo do Augusto mencionar com carinho um certo programa que apresentou com o tio Tarso, cujo nome — Sexta-Feira — sofrera leve corruptela nos bastidores por conta de alguns excessos.
Quando Ziraldo me levou para assinar coluna no Caderno B, não ouvi queixa editorial nem pessoal contra ele naquele nosso cercadinho de progressistas degenerados. Encontrei-o algumas vezes no Fiorentina, reduto histórico da esquerda artística, e nunca me pareceu desconfortável. Lembro de ouvi-lo elogiar, com franqueza improvável, as colunas do Fausto Wolff — seu equivalente em qualidade de texto e truculência do outro lado da trincheira, que só depois se mostraria tão farpada. O JB daquela época tinha Boechat, Aldir Blanc e o gênio querido e imortal Antônio Torres. No primeiro caderno, um filósofo chamado Olavo de Carvalho já expunha suas convicções de mundo — sem muita celeuma ou alarde.
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Logo fui ser roteirista na TV Globo e nunca mais tive contato com Augusto. Dez anos depois, recebi notícias por meio de um conhecido num grupo de WhatsApp. Estava eufórico ao compartilhar o vídeo da agressão ao Glenn Greenwald num programa de rádio. Era um jornalista quatro vezes vencedor do Esso, autor de Minha Razão de Viver, num pugilato físico e ideológico contra um vencedor do Pulitzer — para deleite de um boçal que jamais se interessara sequer em acertar o sujeito antes do verbo.
Tempos ásperos.

