O escritor amazonense Milton Hatoum diz sobre a memória que “é preciso dar tempo ao passado para fantasiar com conhecimento de causa”.
Em seu diário de luto, Educação da Tristeza, o português Valter Hugo Mãe escreve que “a memória é a única possibilidade de regresso. Quem perde a memória está expulso”.
Já Imani, narradora de Mulheres de Cinza, do moçambicano Mia Couto, observa: “Sabemos que somos feitos de memórias, mas não sabemos até que ponto somos feitos de esquecimento”.
Hatoum, Mãe e Couto coincidem em vários planos: na língua pluricêntrica que compartilham, no ofício literário que os ampara e no prestígio que cada vez mais os aproxima de um Prêmio Nobel. Mas, sobretudo, o que os une são dois eixos persistentes: a estima pela memória e pelo feminino. Valter Hugo anexou o matronímico — Mãe — como um gesto de afeto aposto ao sobrenome. Mia Couto define a si mesmo como um composto de estranhamentos: “sou um branco na África, um escritor na terra da tradição oral, um homem com nome de mulher”. Hatoum, por sua vez, empresta às figuras maternas de suas obras — especialmente em Dança de Enganos — o papel de guardiãs da memória contra os arbítrios da história.
Em comum, os três guardam também na memória a estima por um mesmo lugar e uma mesma mulher: Passo Fundo e a professora Tânia Rösing.
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Espreito a professora Tânia à distância segura de um enxerido. Algum contratempo físico a atrapalha o passeio. A fisionomia escancara um cacoete que antes eu quase não percebia; um sorriso que se expande a qualquer prosaísmo aparente.
Penso que o pretérito de passadas firmes e lábios ríspidos seja a razão que redunda naquela expressão leve de agora. É um instante raro em que a memória da cidade converge história e presença física diluída em sua paisagem; as pessoas, distraídas, passam e nem percebem.
A professora Tânia operou com estrondo uma revolução silenciosa. Se a literatura costuma ser introspectiva, sua defesa pública é sempre, por definição, um ato histriônico – nunca histérico.
Ali existe um corpo que falha; mas persiste uma ideia.
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A cidade é a memória que fica e a que segue com quem passou por ela.
Há a memória estática e permanente, inscrita nas ruas e lapidada nos bustos — quase sempre dedicada a heróis de fé e santos de guerra.
E a memória expansiva, que se desloca e se reinventa nas versões que cada forasteiro carrega consigo.
Esta é a memória que ignora as cabeças de bronze em detrimento das ideias em carne e osso.
É a memória que levam da cidade Valter Hugo Mãe, Milton Hatoum, Mia Couto e centenas de outros escritores e escritoras brilhantes que passaram pela jornada.
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Certa vez encontrei no Rio um escritor experimentado em eventos literários. Havia recém-chegado da badalada Festa Literária de Paraty (Flip). A pele curtida dos dias de sol com seus pares naquele paradisíaco balneário colonial contrastava com a melancolia de seu semblante de existencialista terminal. Resmungava do clima excessivo de festa que havia encontrado naquela… festa!
"Parecia um circo," disse ele, "mas sem aquela atmosfera, sem o envolvimento e sem o vento insuportável de Passo Fundo." Era uma clara referência, deferência e resistência ao Circo da Cultura, ao cuidado da professora Tânia em preparar os leitores — e, por óbvio, ao sopro gelado e cortante que nos assovia a pele durante o inverno.
Era, então, a memória da cidade que se expande para além de seus domínios.
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Observo a professora Tânia quando me vem à memória outra mulher cuja petulância de propósitos sempre merece ser exaltada: dona Heloisa Almeida. Recordo o dia em que a conheci. Ela havia escrito um livro sobre espiritismo. Fiquei impactado e quase medroso com sua reação ao me ver. Queria saber o que meu avô fazia ali comigo, ao pé da porta.
Meu avô faleceu quando eu tinha três anos.
Até onde sei, aquela foi a única matéria que eu e meu avô fizemos juntos.
Depois veio o entendimento e a admiração por sua intransigência em providenciar outro bem essencial às pessoas: alimentos.
Livro e comida.
Palhaços e padeiros à parte; precisamos de mais pão e circo.

