Trombei contra os primeiros sintomas da puberdade nos anos 1990. Naquele tempo, era tudo mato — e aqui faço uso oportuno do primeiro literalmente que me é de direito. Se a década de noventa costuma ser lembrada como uma era de excessos e raríssimas contenções, é provável que a epítome dos exageros se revelasse na maneira como os sapiens se relacionavam com os próprios pelos. Cultivar-se farto em pelagens era, então, questão de ordem quase civilizatória.
Os chumaços cumpriam papel estratégico na economia do ethos e do pathos das paisagens eróticas da época. Era por meio deles que o corpo sinalizava trajeto e aptidão. Amadurecer era a arte de procurar pelo em ovo — putz! — literalmente.
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Sou remanescente da última geração que precisou lidar com a resignação estética imposta pela transição para a fase adulta. Naquele tempo, os hormônios eram temidos como vikings esteroides, prestes a atacar em bandos nossas aldeias celulares indefesas, deixando para trás apenas acne e destruição.
Consertar um mero nariz adunco demandava uma equipe multidisciplinar com cirurgião plástico, arquiteto, mestre de obras, açougueiro e uma boa linha de crédito no Banrisul. A dentição já vinha curtida desde a infância nos corantes de Cheetos e Fanta Laranja. Só aos quinze surgiam os primeiros pigmentos de nicotina.
Nem Aldous Huxley fora capaz de imaginar um futuro distópico tão próximo em que uma epidemia de toxinas botulínicas injetáveis reduziria, em definitivo, a aparência humana a um único formato maxilar e a testas inexpressivas. Não nos restava muito além do creme rinse nos pelos e do polegar opositor.
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Tardei em brotar os primeiros sinais de virilidade capilar no perímetro das vergonhas. A angústia era potencializada pela ansiedade de me qualificar diante do grupo de amigos precoces, que já exageravam as circunstâncias de suas primeiras epopeias físicas a dois.
As primeiras experiências coincidiam sempre com algum destino distante, com alguma prima distante, que ninguém conhecia. Embora todas as histórias fossem mentiras, é perturbador pensar que preferíamos ser acusados de incesto a sermos chamados de virgens.
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Meu melhor amigo à época era filho único e de temperamento erudito. Do tipo que folheava cadernos de cultura ao som de Os Três Tenores. Como o acesso a conteúdos eróticos era essencialmente analógico, nosso acervo não passava de meia dúzia de exemplares da Playboy, disfarçados atrás da coleção da Enciclopédia Barsa, que ele expunha orgulhoso na prateleira de mogno.
Além de despir grandes estrelas, a revista trazia conteúdo editorial de excelência, com reportagens assinadas por nomes como Fernando Morais e Adriana Negreiros. Lembro de uma edição em que ficamos mais impactados com a entrevista com Celso Furtado do que com a modelo fotografada por Luís Crispino. Além de machistas, já éramos uns progressistas enrustidos.
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Um dia, chegou-lhe às mãos outro tipo de publicação, sem qualquer firula intelectual e com material pornográfico bem mais agressivo. A novidade era o enquadramento explícito das fotografias. Eu achei pesado; ele acreditou estar diante do novo Godard da baixaria.
A última página publicava classificados de almas liberais em busca de aventuras sem compromisso. Um anúncio nos transtornou em aflição e euforia. Euforia porque, dizendo-se curiosa a todas as possibilidades, ressaltava polidamente não ter interesse em contrapartidas financeiras. Aflitos porque o nome que assinava o reclame era exatamente o de uma famosa beldade que frequentava, de forma assídua, nossas fantasias mais vulgares e ridículas.
Poderia ser apenas um pseudônimo, mas quem sabe ela morasse mesmo em São Luís do Maranhão. Na dúvida, despachamos uma carta-convite pelo correio. Duas semanas depois, veio a resposta. Proposta aceita. Bastava enviar a cortesia do valor da passagem. Ficamos impressionados com sua disponibilidade em atravessar o país de ônibus, inclusive.
Devolvemos o envelope com a soma de nossas mesadas e montamos plantão na rodoviária. Depois de um mês de espera, fomos embora. Virgens como sempre, mas craques em negociar artesanato indígena.
Talvez tenha sido golpe; mas talvez ela tenha apenas desembarcado em Erechim.


