OPINIÃO

Dança dos Famosos

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Eis os meus três grandes mistérios da vida: espíritos, alienígenas e o forró. A humanidade se divide em dois grupos: os céticos e os convictos quanto à existência de seres extraterrestres e penados. Costumo oscilar entre ambos. Qualquer luz estranha no céu ou barulho esquisito na cozinha, durante minhas recorrentes idas ao banheiro na madrugada, já me transporta aos enredos mais perturbadores de H. G. Wells e Edgar Allan Poe.

Josiane, sempre razoável, ofende minha próstata e vira pro lado.

Os céticos sustentam que, na ausência de evidências científicas, espectros e inteligências extrassolares não passariam de abstrações — fruto da tendência humana de recompor o ordinário pelo extraordinário. Recusar a hipótese da finitude da vida e da solitude do universo seria uma forma engenhosa de concentrar energia em objetivos mais urgentes, como o sonho de um apartamento na planta, com cozinha integrada e varanda gourmet.

Afinal, assombrações, parentes e ETs quase nunca avisam antes de dar as caras.

Mas, curiosamente, ciência e fé se omitem em explicar o forró. O forró é a evidência mais escancarada da existência de forças sobrenaturais. Por quase uma década, frequentei o Nordeste a trabalho. A equipe costumava celebrar o fim das gravações em algum pé-de-serra. Posso afirmar que apenas espíritos muito evoluídos são capazes de distorcer o tecido do espaço-tempo que o forró exige e sobreviver ilesos a sequelas psíquicas e lombares.

Sem Allan Kardec e Erich von Däniken, seria impossível acreditar em Luiz Gonzaga.

Em compensação, durante muito tempo fui um exímio dançarino de chula. Minha popularidade só foi abalada depois que um gaúcho do Alegrete se juntou à equipe. Formado por pessoas de diversas regiões do país, o grupo atingia seu ápice quando o álcool desinibia o coletivo para uma excêntrica mistura de show de calouros com festival de folclore. O vencedor era retribuído com imenso prestígio e uma semana de almoços por cortesia do vale-refeição dos derrotados.

Embora rivalizasse em alto nível com representantes do frevo e do carimbó, bastou que meu conterrâneo passasse a difamar minhas performances como meras sapateadas toscas sobre um cabo de vassoura para que meu status despencasse. Ainda tentei retrucar que defendia uma vertente moderna de chula-jazz, cuja beleza estava na arte de improvisar sobre bases tradicionais, mas é muito chato discutir com um sujeito que leva as próprias boleadeiras para uma festa do trabalho.

O ano de 1954 foi muito excitante para o meu avô, Mucio de Castro. Patrono do CTG Lalau Miranda, acompanhou a Invernada de Danças ao Rio de Janeiro para uma apresentação ao vivo no programa de Renato Murce, na Rádio Nacional. O Rio era a Capital Federal, e os auditórios de rádio viviam lotados. O ponto alto foi o clássico “Pezinho”, de letra, melodia e coreografia simples, agradáveis tanto a quem assistia ao vivo quanto a quem apenas imaginasse pelo rádio.

O convite partira de Getúlio Vargas, então reabilitado pelo voto após a truculência do Estado Novo. Em agosto, Vargas se suicidaria; em outubro, meu avô seria eleito deputado estadual pelo PTB. Anos depois, revirando papéis guardados por minha avó, Dona Ada, encontrei recortes daquele período de agenda frenética misturados a uma carta manuscrita de Fernando Ferrari, convidando meu avô a aderir à sua campanha à vice-presidência de 1960 pelo recém-fundado MTR (Movimento Trabalhista Renovador). A ideia era antagonizar o trabalhismo de Brizola e João Goulart. Mas Jânio Quadros seria eleito presidente, com Jango de vice — as candidaturas eram separadas. Em 1961, Jânio renunciaria; em 1963, Ferrari morreria em um acidente aéreo; em 1964, Jango seria deposto; em 1965, o AI-2 extinguiria tanto o PTB quanto o MTR. Em 1979, Brizola perderia na justiça a sigla do PTB para Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio, e fundaria o PDT, enquanto o novo PTB chegaria aos estertores sob a tutela de Roberto Jefferson. Em 2023, fundiu-se ao Patriotas, sob a condição de que Jefferson fosse defenestrado, dando origem ao PRD, atualmente federado ao Solidariedade.

Em 1954, quem diria que aquele singelo “Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho // O teu pezinho bem juntinho com o meu (…) // E depois não vá dizer que você já me esqueceu…” soaria tão profético.

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