OPINIÃO

Entre gregos e goianos

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"Tristão e Isolda" é um texto apócrifo celta medieval. Ainda assim, não circula com alarde entre grupos de teóricos da conspiração de WhatsApp. Mais comum vê-lo em horário nobre, em folhetins de Walcyr Carrasco ou Gloria Perez.

É curioso que uma obra medieval sobre adultério seja tratada como certidão de nascimento do amor romântico, por mais que os bretões fossem notáveis na arte de incrementar picuinhas de poder com doses generosas de encrencas extraconjugais. No mais, duelar, beber e fornicar eram o puro zeitgeist dos bravos povos da — com o favor do trocadilho — Cornualha.

Para que a vida fosse boa, bastavam uma boa adaga afiada, a ilha do próximo, a mulher do próximo e uma bela safra de hidromel. Só faltou combinar com os alemães.

O compositor alemão Richard Wagner foi pródigo em escrever libretos e uma catástrofe em ensaiar manifestos. Sua obra-prima, "O Anel do Nibelungo", é um ciclo de quatro óperas que dura um breve estalo de 15 horas. Já seu infame ensaio antissemita, "O Judaísmo na Música", ainda ecoa séculos de ódio em intermináveis 56 páginas.

Mesmo com visão racial simplória e divisiva, ao adaptar "Tristão e Isolda" sete século depois, Wagner ressignificou atos e efeitos mundanos aos extremos de uma força metafísica que sustentasse o sentido do amor além da moralidade. Sob impacto do pessimismo de Schopenhauer — quando o niilismo ainda não se tornara esporte nacional alemão — despiu a lenda de seu caráter anedótico, adúltero e feudal para transmutá-la numa profunda investigação sobre o desejo absoluto e suas consequências.

Talvez porque o adultério não lhe fosse estranho. À época, engatara romance com a jovem Cosima, então esposa de Hans von Bülow, seu maestro e melhor amigo. Durante os ensaios, ao descobrir a traição, Bülow entrou em colapso nervoso e enfrentou ideiações suicidas. Cosima, por sua vez, entrou em trabalho de parto.

Na estreia, o maestro manobrava sua batuta trágica do fundo do poço e do fosso, enquanto Cosima amamentava na coxia a filha recém-nascida do amante, Isolda, consagrando Wagner como gênio da metafísica e grande cafajeste da metalinguagem.

O jovem filósofo alemão Friedrich Nietzsche pensava muito, amava muito, sofria muito, mas transava pouco. Ao assistir à ópera, saiu impactado — em parte porque vivera circunstâncias semelhantes às de Tristão, Isolda, Cosima e Wagner. As feridas do triângulo com Lou Salomé e Paul Rée ainda tardavam a cicatrizar. Não engravidara a mulher do amigo, pois fora rejeitado física, afetiva e enfaticamente três vezes. Como bom safado de academia, era melhor adúltero na teoria que na prática.

Não por acaso "Tristão e Isolda" rendeu-lhe o primeiro grande trabalho. Em "O Nascimento da Tragédia", elegeu a obra como ressurreição do espírito dionisíaco — força bruta e embriagada capaz de salvar a cultura alemã do tédio. Embora seu hermetismo hedonista tardasse a repercutir entre os pares, o empresário de Wagner, cuja reputação libidinosa corroía sua imagem, deve ter apreciado a abordagem.

Mas o encantamento pelo mestre durou pouco. Logo seria revisto pela régua do fanfarrão imoral em "Humano, Demasiado Humano", "O Caso Wagner" e "Assim Falou Zaratustra". Nietzsche morreu em melancólico ostracismo, após longa temporada de saúde mental abalada, suspeito de sífilis; Wagner morreu ao sabor da fama, de súbito, vitimado por infarto. Não deixa de ser tragicamente irônico que Wagner tenha morrido pelo coração — enquanto Nietzsche, pelo sexo.

O sucesso da teledramaturgia brasileira valeu-se da jornada de "Tristão e Isolda" para definir seus arquétipos românticos, mas aplicou filtros morais ao enredo. O desejo precisava de justificativa ética que sobrevivesse ao intervalo comercial sem abalar valores familiares. A solução foi óbvia: a parte enganada seria descaracterizada até ressurgir sob fortes tintas da vilania mais esdrúxula, perversa e caricata, enquanto aos casais apaixonados a morte seria revista em sucessivas variações de final feliz.

Fazia todo sentido. A velha tragédia celta-germânica, como entretenimento cotidiano, seria pesada demais para os folhetins brasileiros. Até a vida retroceder milhares de anos e desembocar na Grécia Antiga. Em "Medéia", de Eurípides, a personagem-título é traída pelo marido. Como vingança, mata os filhos — mas preserva o do infiel para que agonize sob o peso da culpa e linchamento moral do público. É o que acontece. Ainda hoje, “Medéia” é um tremendo sucesso.

A diferença é que a tragédia grega é apenas ficção.

A tragédia goiana, não.

É apenas tragédia.

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