OPINIÃO

Quarenta tons de fé

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A fé cristã é profundamente significada pelo número quarenta. Ao Velho Testamento remontam os primeiros episódios em que a espécie foi ultimada a enfrentar quarenta dias de sacrifícios e privações, a pretexto de revisar certos protocolos de etiqueta, nos melhorar a índole e assegurar alguma permanência.

Noé teve de encarar o dilúvio por quarenta dias e noites para purificar a terra dos pecados, suportando toda sorte de náuseas marítimas, a libido dos coelhos e o peso da culpa pela epidemia de Lulu da Pomerânia.

Moisés escalou o Monte Sinai e viveu quarenta jornadas de silêncio e jejum absoluto antes que Deus lhe ditasse as dez regras essenciais de boa convivência — por coincidência, as mesmas dez que o banqueiro Daniel Vorcaro parece obcecado em contrariar, da última à primeira.

Já o Novo Testamento apresenta Jesus Cristo em duas situações que definem bem o tamanho de sua figura em nosso imaginário de fé, mais de dois mil anos depois.

Os quarenta dias no deserto, com o diabo ao pé do ouvido a lhe soprar toda sorte de tentações. Não é pouca coisa. Sei de um sujeito de excelente reputação na comunidade que costuma sucumbir por muito menos em apenas 24 horas de passagem pelo deserto de Las Vegas — e pela barragem do Capingui também.

A outra foram os quarenta dias de aparições após a ressurreição — sem dúvida a mais extraordinária de todas — cujo impacto gráfico e narrativo extrapolou os perímetros do sagrado, fazendo-se notar até mesmo em simulacros que nos distraem de um cotidiano carente de algum assombro: seja nos livros de realismo fantástico de escritores latinos ou nos grandes espetáculos de pirotecnia ilusionista americanos.

Sem o fascínio laico pela ressurreição, não existiriam Juan Rulfo, Julio Cortázar nem David Copperfield.

Ressurreição que, como se sabe, se celebra na Páscoa, precedida pelos quarenta dias da Quaresma. Para este período, Josiane tem seus modos particulares de reabilitar a conduta perante o Criador. Desde a Quarta-feira de Cinzas, ela interrompeu temporariamente qualquer ingestão de açúcar, no que religião e ciência divergem pelo conceito de fé e dieta.

É um sacrifício que comove, na medida em que se observa o transtorno de ter de procurar atentamente nas gôndolas do supermercado quais chocolates e sobremesas a indústria alimentícia desenvolveu tecnologia suficiente para substituí-lo por seus análogos químicos. Talvez alguém a questione pelo tipo de sacrifício de sua quarentena — já que praticamente todos os chocolates e sobremesas hoje oferecem opções isentas de sacarose; mas eu prefiro apenas acreditar que se trata de mais um pequeno milagre consequente à sua fé.

É a única explicação razoável para o fato de ela ter aparecido, em plena Quaresma, com uma fatia de cheesecake de caramelo salgado. Uma receita à base de açúcar, biscoito, queijo e notas salinas que justificam o seu título.

Sem açúcar. Sem glúten. Sem lactose. E — por Deus! — sem sal também.

Eu entenderia tranquilamente algum eventual rancor por parte de Cristo, Moisés ou Noé.

Fé, diga-se, que independe inclusive do hábito da hóstia, pois Josiane descobriu-se intolerante ao glúten. Eu também, embora minha intolerância seja a farináceos de procedência diferente. Tenho para mim que o glúten e a lactose deram origem a todas as intolerâncias que se alastraram mais tarde por nossas dinâmicas sociais e ideológicas. Éramos todos unidos pela cuca, pelo cacetinho e pela cassata, até nos dividirmos de vez entre coxinhas e mortadelas.

De modo que, aqui em casa, nos tornamos adeptos da penitência proteica. Em lugar de comungarmos o corpo refinado de Cristo, optamos por uma versão lowcarb de espiar nossos pecados. Começamos com o galeto da igreja e passamos para o churrasco da igreja. É uma ação muito nobre, que aproxima a comunidade do bairro e da cidade em um mesmo espaço e propósito e ainda preserva a saúde dos músculos. O simbolismo do ambiente como destino de alimento e acolhimento, o gesto do voluntariado e do preparo comunitário — é tudo muito bacana. Se tivesse de fazer uma única ressalva, seria apenas sobre o ponto da carne, embora entenda que lá não seja o lugar apropriado para reclamar minhas predileções carnais.

Mas alguma coisa em minha conduta ainda parece contrariar profundamente o Senhor.

Acabo de ser convocado ao cachorro-quente da igreja.

Eu reconheço os Teus sinais.

Eu sei do que as salsichas são feitas.

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