A frase é de Matthew Desmond, autor de “Poverty, by America” (“Pobreza, pela América”), lançado em 2023. Desmond é reconhecido como um dos sociólogos mais influentes da atualidade nos estudos sobre desigualdade e pobreza nos Estados Unidos. Seu livro recebeu o Prêmio Pulitzer, uma das distinções mais prestigiadas do mundo nas áreas de jornalismo, literatura e música. Matthew evidencia o paradoxo estrutural da sociedade norte-americana: “a democracia mais rica com a maior pobreza”. Um dos exemplos mais contundentes desse contraste é a taxa de pobreza infantil nos EUA, que supera a de outras democracias avançadas e chega a ser o dobro da observada no Canadá, na Coreia do Sul e na Alemanha.
Pobreza
Nos Estados Unidos, a pobreza atinge proporções que contrastam com a imagem de país mais rico do mundo. Hoje, 1 em cada 9 adultos e 1 em cada 8 crianças vive abaixo da linha da pobreza. Além disso, 1 em cada 18 pessoas está em situação de extrema pobreza. Mais de 2 milhões de norte‑americanos ainda não têm acesso a água encanada e banheiro, e cerca de 30 milhões seguem sem plano de saúde. Entre as famílias pobres que dependem do aluguel, a maioria compromete ao menos metade da renda com moradia. Um quarto delas gasta mais de 70% do que ganha apenas com aluguel e contas básicas. A pressão financeira aparece também nos despejos: 3,6 milhões de avisos são emitidos todos os anos — um volume semelhante ao registrado no auge da última grande crise financeira. O sistema penal reforça o quadro. O país mantém 2 milhões de pessoas encarceradas e outras 3,7 milhões em liberdade condicional. E, como destaca Desmond, a grande maioria dessas quase 6 milhões de pessoas é pobre.
O preço para acabar com a pobreza
Matthew Desmond calcula que US$ 177 bilhões por ano seriam suficientes para erradicar a pobreza nos Estados Unidos — menos de 1% do PIB. Segundo ele, o país já teria esse dinheiro disponível se o 1% mais rico pagasse integralmente os impostos devidos. A tese reforça a ideia de que o problema não é falta de recursos, mas um sistema tributário repleto de brechas, que permite perdas bilionárias e favorece a concentração de renda.
Gastos militares
É crescente o debate sobre as prioridades nacionais e sobre a forma como os recursos públicos são direcionados para guerras, enquanto faltam investimentos em saúde, moradia e assistência social. Segundo o Washington Post, o governo americano gastou a impressionante quantia de US$ 5,6 bilhões em armamentos e operações militares apenas nos dois primeiros dias da guerra contra o Irã — um conflito que muitos consideram ilegal. A senadora Elizabeth Warren, por exemplo, afirmou que o governo Trump “não consegue explicar por que entramos nesta guerra”, ao mesmo tempo em que gasta um bilhão de dólares por dia para bombardear o Irã, enquanto 15 milhões de americanos perderam o acesso à assistência médica.
Mortes por desespero (Deaths of despair)
As dificuldades econômicas e a crise social que muitos americanos enfrentam, provocadas pela desindustrialização, empregos instáveis, queda da renda, perda de mobilidade social, enfraquecimento das comunidades e a epidemia de opioides formou o cenário perfeito para um colapso silencioso, marcado pelo isolamento e pela falta de perspectivas. Os economistas Anne Case e Angus Deaton descrevem um fenômeno que ganhou força nos Estados Unidos nas últimas décadas: as “mortes por desespero”. No livro Deaths of Despair and the Future of Capitalism (2020), eles mostram como suicídios, overdoses — sobretudo por opioides — e mortes relacionadas ao alcoolismo dispararam entre trabalhadores sem diploma universitário.
O colapso do sentido da vida
No Brasil, o economista e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca também tem chamado atenção para esse tipo de tragédia. Para ele, o desespero surge quando o indivíduo perde o vínculo com o mundo e deixa de enxergar sentido na própria existência. É um estado em que a vida parece vazia, sem direção e sem futuro. Quando essa sensação se prolonga, pode evoluir para comportamentos autodestrutivos — uma resposta extrema ao sofrimento de quem já não encontra motivos para continuar.



