Um homem aos 59 anos, em crise com sua fé, insatisfeito consigo mesmo, sentindo-se infeliz e em busca de significados para continuar vivendo. Assim Paulo Coelho, obedecendo a orientação do seu mestre, J., decide viver novas experiências e empenhar-se naquela que seria a sua terceira peregrinação por caminhos supostamente sagrados, depois de Santiago de Compostela, em 1986 e, três anos após, o Caminho de Roma. Desta vez, o percurso escolhido foi uma viagem de trem pela parte russa da ferrovia transiberiana, com seus 9288 km, ligando centenas de vilarejos e cidades, cortando 76% do país e atravessando sete diferentes fusos horários, entre Moscou e Vladivostok, o ponto final. A experiência vivida por Paulo Coelho, seus editores, um grupo de amigos e uma enigmática mulher, Hilal, em 2006, durante a travessia da transiberiana, serviu, conforme relato do autor, para um reencontro consigo mesmo, fazendo-o voltar a acreditar em tesouros e em milagres, e de fonte de inspiração para o livro O Aleph.
Paulo Coelho, valendo-se do direito de leitor que tanto defendia Jorge Luis Borges, tomou emprestado o título e a ideia central do célebre conto El Aleph, do escritor argentino, para produzir o seu O Aleph. Apesar do título em comum, o diferencial entre ambos fica evidenciado por mais superficial que seja a leitura das duas obras. Enquanto El Aleph de Borges é um exemplo de estilo, de concisão e uma verdadeira aula de como bem escrever, O Aleph do Mago, repetindo fórmulas de sucesso consagradas, é não mais que um amontoado de lugares-comuns, em que se sobressai a crença do autor sobre reencontros com o passado e uma espécie de prestação de contas com as muitas vidas que ele afirma ter vivido.
Paulo Coelho começa pedindo à virgem (qual virgem não importa) que o oriente com o seu amor, fazendo com que fosse capaz de enxergar todos os sinais que o levassem de volta ao encontro consigo mesmo. Afirma saber que está nas pessoas que o cercam e elas estão nele. Apela para a tradição, a sua tradição, que diz que, no segundo antes da morte, cada um se dá conta da verdadeira razão da existência. E é nesse momento que nasce o inferno ou o paraíso. E, para viver a sua lenda pessoal, decide seguir os sinais que tanto fala em seus livros, pois afirma que uma vida sem causa é uma vida sem efeito. E mais: as pessoas nunca partem, pois estamos sempre aqui em nossas vidas passadas e futuras.
Há, para quem percorre as 225 páginas do livro do Mago, um encontro com frases e expressões bem conhecidas e que tocam de forma eficiente e fácil a sensibilidade humana, quase num estilo autoajuda. Numa pequena amostragem, coisas tipo “saia do conforto e vá à busca do seu reino”, “o que não tem remédio, remediado está”, “aquilo que nos fere é aquilo que nos cura”, “quem deseja ver o arco-íris precisa aprender a gostar da chuva”, “alguém disse que as lágrimas são o sangue da alma”, “gaste suas energias e permanecerás novo”, “só a mediocridade é segura, por isso corra seus riscos e faça o que deseja”, “sonhadores não podem ser domados”, “a morte é uma porta para outra dimensão”, “as pessoas que já fomos e que seremos um dia”, “estamos encontrando-nos e despedindo-nos por toda a eternidade”, “vença você mesmo e vencerá o mundo” ou, revivendo o pastor Santiago em O Alquimista, “é preciso ir para longe antes de compreender o que está perto” e a fatalista e esperançosa “a vida é um sonho do qual só despertamos quando encontramos a morte”.
Admito ter gostado de passagens como: “na vingança o máximo que pode acontecer é nos igualarmos aos nossos inimigos, enquanto no perdão mostramos mais sabedoria e inteligência” e “que é importante saber apreciar e honrar nossos oponentes, pois essa é uma atitude totalmente distinta daquela dos aduladores, dos fracos ou dos traidores”. E que, muitas vezes, é importante entrar em uma luta apenas por respeito aos adversários.
Paulo Coelho, ao longo dos 9288 km da transiberiana, descobriu no Aleph, o ponto onde tudo está no mesmo lugar ao mesmo tempo, que na sua narrativa ficava na passagem que liga dois vagões da composição em que viajava, a razão da sua angústia e reencontrou a paz. Havia fraquejado no passado e, em razão disso, oito mulheres foram executadas. Ao longo do seu caminho terreno já se deparou com cinco delas, que acabaram perdoando-o. Ainda restam três. Quem sabe teremos O Aleph 2?
(Coluna originalmente publicada em 2010.)
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

