No ano de 1888, o eu lírico do poeta Olavo Bilac ocupava boa parte de sua melancolia ouvindo estrelas. Em Via Láctea, já interrogava o silêncio do universo, a ponto de sentenciar, no célebre Soneto XIII: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!”.
Se Bilac ouvia estrelas, Drummond dissolveu a lua como pedras de gelo.
Em 1930, em Poema de Sete Faces, ajustou o telescópio à escala humana, com leves sintomas de embriaguez: “Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”
Forjava-se ali o pioneirismo brasileiro na corrida espacial. Enquanto as grandes potências afiavam motores, ogivas e discursos militares, o Brasil já se impunha como vanguarda graças à tecnologia imbatível de nossos sentimentalismos mais exaltados.
Quando o mundo finalmente decidiu se lançar à estratosfera — em sua versão fratricida e altamente financiada —, já havíamos colonizado a lua com nossa própria tripulação de poetas consagrados, entre os quais Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu.
Depois viriam Herbert Vianna, Luiz Gonzaga, Roupa Nova, Geraldo Azevedo, Xuxa e Exaltasamba.
As exceções seriam Vitor Kley e Jota Quest, que preferiram se arriscar no perigoso caminho dos falsetes solares.
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A lua talvez seja o ambiente mais notório em que artistas, militares e cientistas convergiram interesses.
A Guerra Fria deixou seu saldo de fracassos e mortos, até que, em 1969, a Apollo 11 finalmente pousasse em solo lunar. Outras missões se seguiram, mas apenas doze humanos tiveram o privilégio efêmero de planar o próprio corpo sobre sua superfície monótona e de pouca gravidade.
Seu fascínio, entretanto, aos poucos dissipou-se. A audiência nos lares americanos, antes arrebatada, já resmungava certo cansaço, mais interessada em coberturas esportivas, assassinatos políticos e programas de culinária.
Em 1972, depois de consumir bilhões de dólares e sem apoio popular, o governo encerrou o projeto Apollo. Entre as razões, o alto custo de manter um destino tão exclusivo, com tão poucas novidades e atrações entre uma temporada e outra.
Opinião polêmica que compartilho sobre o dispendioso e excêntrico balneário de Jurerê Internacional.
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Mas nem tudo foi desperdício. Da experiência espacial restaram invenções de grande utilidade à espécie humana. No Brasil, ainda fazem relativo sucesso a caneta esferográfica, o travesseiro do Marcos Pontes, as teorias conspiratórias — e o próprio Marcos Pontes.
No imaginário infantil, por gerações, impregnou-se o sonho lúdico de visitar o espaço como profissão, apesar de todos os sacrifícios que uma rotina de astronauta impõe: a solidão trancafiada em um espaço insalubre; a alimentação à base de ultraprocessados; as oscilações hormonais; a dependência tecnológica; as próprias higienes negligenciadas; e o risco iminente de um acidente fatal.
O motivo de tão poucos se tornarem astronautas é porque todos passaram pela puberdade.
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Com o esfriamento da corrida espacial, coube aos negacionistas tomar o controle do que chamam de narrativa, requentando teorias envelhecidas e inventando outras ainda mais esdrúxulas, com destaque àquela que garante que a Terra é plana — embora a hipótese de uma Terra íngreme também seja bastante popular entre a recente geração de supremacistas de montanhas.
O ano de 2026 promete, entretanto, uma nova era da ciência: China e Estados Unidos disputam agora o monopólio de outras riquezas lunares, entre as quais o hélio-3, minério raro com potencial de revolucionar a energia mundial.
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Personagem pouco conhecido, Thad Roberts foi o protagonista de uma das histórias mais incríveis da corrida espacial, embora sequer tivesse pisado em um foguete. Em 2002, era então um brilhante estagiário da NASA quando quedou de amores arrebatadores pela bela Tiffany. Como flores e chocolates fossem clichês demais, elaborou um sofisticado plano para surrupiar, do Johnson Space Center, um cofre de 300 quilos forrados de amostras lunares, estimadas em mais de 20 milhões de dólares.
De posse do material, seguiu em disparada com sua amada para um motel, onde a surpreendeu espalhando os pedaços de rochas pontiagudas sob o colchão. Fez sexo na lua, tentou vender o produto na internet e puxou generosa cana em presídio federal.
Em Passo Fundo, Roberts teria feito promissora carreira no competitivo ramo dos estelionatos locais: aplicado o golpe do bilhete e transando na Pedreira.
À luz do dia, sob a luz do luar.


