Gabriel Cavalheiro Tonin, codinome artístico Gabito, sobressaiu-se, no livro Cartas para Mariana, mais um “sonhador” de histórias do que um “contador” de histórias, que é uma das suas múltiplas facetas profissionais. Essa obra, publicada em 2025, com o apoio do 8º Prêmio Funcultura, edição 2024, sob auspícios da Secretaria Municipal de Cultura e Prefeitura de Passo Fundo, pelas suas indiscutíveis qualidades literárias, sairia vencedora, na categoria crônica, do 5ª Prêmio Literário Cidade de Passo Fundo.
Cartas para Mariana é uma coletânea de crônicas. Apesar de usar como tema a tradicional lenda da Mãe Preta, que dá título ao livro, não se restringe a ela. O autor deu vazão, em textos primorosos, a todo o seu humanismo que, acredito, tenha sido lapidado nas suas ações de contador de histórias, que o habilitaram, além de contar, também a “sonhar” histórias. Uma Passo Fundo e sua gente, de ontem e de hoje, retratadas com o seu peculiar jeito de olhar para o futuro, nas palavras do Gabito, com desmedida paixão, e, para o passado, com descabido desprezo. Ainda que não pareça algo óbvio, nem todo passo-fundense tem noção da lenda da Mãe Preta e do suposto fundador de Passo Fundo, admitido por alguns e negado por outros, o Cabo Neves, não separando ficção de realidade. E, nesse sentido, os livros Cartas para Mariana, do Gabriel Cavalheiro Tonin, e A Lenda da Mãe Preta, do Ivaldino Tasca, nos tempos atuais, cumprem papel relevante.
A tentação é comentar cada crônica do Cartas para Mariana. Mas, não vamos tirar do leitor o privilégio do prazer da leitura. De qualquer forma, vou fazer referência a duas, que são as minhas preferidas. São elas: “No meio do caminho, havia uma mãe”, página 21, e “Quem conta um conto, aumenta um ponto”, página 24. Na primeira, confesso ser impossível, para quem conhece a história, não deixar de sentir empatia pela mãe retratada na cena passada na Biblioteca Pública Arno Viuniski, por ocasião da contação da história de Mariana para alunos da rede municipal de ensino. Nosso abraço fraterno à professora...! E, na segunda crônica, uma versão, menos romantizada, para a Lenda da Mãe Preta, até então, que eu saiba, não antes cogitada. Que tal se o filho de Mariana tivesse sido uma criança indesejada pelo pai, o próprio Cabo Naves, que teria mandado dar cabo nela? Algo que seria crível mesmo hoje, imagine na primeira metade do século XIX?
Lendas como a da Mãe Preta - Quem bebe da água da Fonte da Mãe Preta sempre retorna a Passo Fundo – costumam caracterizar a identidade de um povo. E livros como Cartas para Mariana contribuem para ao resgate dessa identidade e, não raro, vão além. Na mencionada obra, trabalhando com a imaginação ou sonhando histórias, Gabito nos chama à razão para refletirmos sobre a adoração e o culto ao desenvolvimento econômico, sem qualquer consideração pela preservação do patrimônio histórico de Passo Fundo, seja material ou imaterial. E no terreno dos valores, mesmo meio esquecido, o destaque que mereceria a gratidão. O melhor e o pior do ser humano emergiram na enchente de 2024. Enquanto uns, maioria frise-se, não mediam esforços para ajudar os atingidos pelas cheias, outros na hesitavam em saquear os poucos bens que restaram daqueles que tiveram de deixar as suas casas às pressas.
Gabito, entre outras manifestações de gratidão, deu destaque à aprendizagem que teve com a avó emprestada, a Sra. Anna Maria Emendabili (in memoriam), durante estada na Itália. Foi dela que recebeu o insight “cada pessoa é uma fábula”, que acabaria por tornar a sua missão de contador de histórias um pouco menos difícil.
Estamos na Semana do Contador de Histórias, 20 a 26 de março, em Passo Fundo. Essa coluna não deixa de ser uma homenagem da Academia Passo-Fundense de Letras a esses profissionais da área cultural que, meio sem querer querendo, lidam com a imaginação, principalmente a infantil. Nossos respeitos a nomes como Gabriel Cavalheiro Tonin, Vanessa Hickmann, Paulinho Cantalê, Cassio Borges, Enir Tormes, Luciana Marinho Albrecht, Marcos Bulgos de Andrade, Patrícia Godoy Ritter de Bairos, Eládio Weschenfelder e muitos outros que, involuntariamente, estou esquecendo de citar. Eles e sua arte são imprescindíveis em uma cidade que se orgulha do reconhecimento como Capital Nacional da Literatura e de ostentar o epíteto de Cidade Educadora!


