OPINIÃO

O alimento do discípulo

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​O Evangelho mostra as mudanças que Jesus ressuscitado realiza nos dois discípulos de Emaús: conversão do desespero em esperança; conversão da tristeza em alegria; e também conversão à vida comunitária (Atos 2,14.22-33, Salmo 15, 1 Pedro 1,17-21 e Lucas 24,13-35). Por vezes, quando se fala em conversão, pensa-se no seu aspecto cansativo, de desapego e renúncia. Mas toda autêntica conversão cristã é fonte de alegria, de esperança, amor e aproximação do outro e da comunidade.

​Os discípulos de Emaús acompanharam de perto a trajetória de Jesus e como ele foi tratado pelos discípulos e adversários. Testemunharam a sua crucificação e a morte na cruz. Depois destes fatos, estavam voltando para casa porque sua expectativa foi frustrada: “nós esperávamos que fosse libertar Israel”. Este verbo no passado diz tudo: acreditamos, seguimos, esperamos, mas acabou. Porque, “Jesus, o Nazareno, que foi profeta poderoso em obras e palavras”, também falhou e causou desilusão. 

​Este drama dos discípulos de Emaús é espelho da situação de muitos cristãos em nosso tempo. Parece que a esperança se tornou decepção. Há um poema intitulado “Pegadas na areia” que expressa este sentimento de abandono. “Sonhei que estava caminhando na praia juntamente com Deus. E revi, espelhado no céu, todos os dias da minha vida. E em cada dia vivido, apareciam na areia, duas pegadas: as minhas e as d’Ele. No entanto, de quando em quando, vi que havia apenas as minhas pegadas, e isso precisamente nos dias mais difíceis da minha vida. Então perguntei a Deus: "Senhor, eu quis seguir-Te, e Tu prometeste ficar sempre comigo.Porque deixaste-me sozinho, logo nos momentos mais difíceis? Ao que Ele respondeu: “Meu filho, Eu te amo e nunca te abandonei. Os dias em que viste só um par de pegadas na areia são precisamente aqueles em que Eu te levei nos meus braços."

​Os discípulos de Emaús se afastam desesperançados porque se sentiam sozinhos e sem referência na hora difícil. É neste contexto que Jesus ressuscitado se aproxima deles. Caminha com eles, pede para expressarem o motivo da tristeza, escuta atentamente, recorda ensinamentos conhecidos, alimenta a inteligência e o entendimento para não se deixarem guiar somente pelas emoções.

​Para devolver a esperança, a alegria e fazer os discípulos voltarem à sua comunidade Jesus vai usar meios já conhecidos por eles. Por razões de dificuldade de compreensão e impactados pelos fatos não conseguiam perceber. O diálogo se concentra na compreensão das Escrituras e na partilha do pão à mesa. 

​Jesus faz os discípulos de Emaús mergulharem na Escritura para lhes abrir a inteligência. Porém, há algo de novo na interpretação das Escrituras. Elas são lidas, a partir deagora, tendo como chave de leitura Jesus Cristo, principalmente o Mistério Pascal. É o modo cristão de ler as Escrituras. No plano amoroso e salvador de Deus revelado nas Escrituras - desde a criação, passando por Moisés, os profetas, os fatos históricos do povo de Deus – “falam a respeito de dele (Jesus)”. A imersão nas Escrituras foi fonte de conversão dos discípulos de Emaús e é fonte para todos os cristãos de todos os tempos. “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras”, testemunham.

A pessoa triste e desiludida não pode somente receber e ser passiva. Ela precisa tomar iniciativas, é o que fazem os discípulos de Emaús: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando! E Jesus entrou para ficar com eles”. Sentaram-se à mesa. Foi a oportunidade para Jesus recordar algo fundamental: “Tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía”. Jesus antes de padecer deixou a Eucaristia como forma de manter-se presente. Foi o momento para os discípulos de Emaús reconheceram Jesus: “Nisso os olhos dos discípulos de abriram e eles reconheceram Jesus”. Cristo deixou para todos os seus seguidores o sinal da Eucaristia. Ele quer ser convidado e sentar à mesa conosco. Ele quer nos alimentar com o pão da vida eterna.

Eles voltam imediatamente para Jerusalém onde estava reunida a comunidade. Partilham o encontro com Jesus. Agora tem certeza que a causa que tinham abraçado não estava perdida, pois Jesus continuava com eles e que precisavam da comunidade para seguir.

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