Inspirado nos versos da canção obra-prima dos irmão Marcos e Paulo Sérgio Valle, Com Mais de Trinta, que, com os antológicos versos “Não confie em ninguém com mais de trinta... / Não acredite em ninguém com mais de trinta...”, veladamente, satirizaram a autoridade de uma época representada pelo conservadorismo dos mais velhos (com mais de 30 anos) e a repressão das liberdades angustiadas pelos jovens; eu, depois de ter assistido, na última segunda-feira (25/05/2026), a conferência magna, Literatura e Medicina, proferida pelo médico e literato Gilberto Schwartsmann, passei a olhar com mais acuidade quem se julga bibliófilo e colecionador de obras raras, se não possuir, no acervo, pelo menos 287 edições da obra seminal da sua coleção.
Gilberto Schwartsmann explicou que, para atingir o status que hoje goza no universo dos bibliófilos colecionadores de obras raras e de primeiras edições, começou aos 12 anos de idade, quando uma professora, Dona Giselda, percebendo a sua paixão pela literatura, sugeriu que fosse até a Livraria do Globo, o tradicional estabelecimento dos Bertasos, na Rua da Praia, em Porto Alegre, e adquirisse uma edição bilíngue da obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri, recomendando que lesse primeiro em italiano, para sentir a poesia das palavras, e depois em português. Ele foi, e, acatando a sugestão da vendedora da livraria, que, no sebo do seu avô, nas proximidades, poderia comprar essa obra por preço módico, levando, por aquele valor cobrado na Livraria do Globo, não uma, mas várias edições. Foi o que ele fez e nunca mais parou de comprar edições da famosa obra do poeta florentino. Atualmente, contabiliza, no seu acervo, 287 edições de A Divina Comédia, dos mais variados matizes, incluindo línguas, traduções diferentes e ilustrações diversas, entre elas, um raríssimo exemplar ilustrado por Sandro Botticelli.
Schwartsmann é natural de Passo Fundo. Deixou a cidade com um ano de idade. Até brincou que, contabilizada em meses, 12 meses, não seria tão curta assim a sua vivência em Passo Fundo. Radicado em Porto Alegre, formou-se em Medicina pela UFRGS. Depois de passar longa temporada no exterior, estudando e trabalhando, já reconhecido como oncologista de escol, retornou para Porto Alegre, em meados dos anos 1990, assumindo como professor na universidade onde havia se graduado. É professor emérito da Medicina da UFRGS e da Escola Latino-Americana de Oncologia. Membro titular e ex-diretor da biblioteca da Academia Nacional de Medicina e ex-presidente da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina. É membro da Academia Rio-Grandense de Letras e do PEN Clube do Brasil. É dramaturgo, cronista e ensaista, com obras traduzidas para diversos idiomas, além de curador de exposições literárias. Presidiu a Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, a Associação do Theatro São Pedro e a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. Atualmente, preside a Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Láureas não lhe faltam: Destaque em pesquisa da Fapergs, Medalha do Mérito Farroupilha, Medalha Simões Lopes Neto, Destaque Cultural do Governo do RS, Destaque Especial na Cultura da ARI, Prêmio Açorianos, Prêmio Octávio Frias de Olivera do IGESP-Grupo Folha de SP e Personalidade do Livro da Câmara Rio-Grandense do Livro, entre outros. O seu mais recente livro é O Colecionador de Mentiras, de 2025.
Na conferência Literatura e Medicina, Gilberto Schwartsmann fez um passeio pelos clássicos da literatura universal, pincelando passagens que guardam alguma relação com o mundo da Medicina. Por exemplo, em Dom Quixote, a obra magna de Cervantes, destacou as queixas de Sancho Pança, presentes na segunda parte do romance, contra o Dr. Agüero e a sua absurda dieta da fome, que lhe impedia de comer o que gostava. Do poeta romano Ovídio, a célebre frase “Não há erva alguma para curar o amor”, extraída de As Metamorfoses. Nas obras de Shakespeare, a antecipação dos chamados distúrbios psicossomáticos. Estão lá, a fadiga e o distúrbio do sono de Lady Macbeth. O sentimento de vazio, as mágoas e as angustias em Hamlet. Os calafrios em Romeu e Julieta. Desmaios e palidez em Júlio César e Ricardo III. A memória involuntária, ativada pelo olfato, conforme explorada por Proust com as madeleines mergulhadas em uma xícara de chá no romance Em Busca do Tempo Perdido. A tuberculose presente na obra A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Idem em Florada na Serra, de Dinah Silveira de Queiroz, com a metáfora das flores vermelhas simbolizando os escarros com sangue dos acometidos por essa doença. A disfuncionalidade familiar em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O Alienista, de Machado de Assis, que reflete o comportamento de muita gente ainda hoje no Brasil. E, na minha visão, a mais emblemática das obras citadas por Gilberto Schwartsmann, A morte de Ivan Ilitch, que trata da relação médico x paciente x família x amigos x sociedade, diante de uma pessoa acometida por uma doença terminal. Esse livro do genial Tolstói deveria ser leitura obrigatória na formação médica (talvez em algumas Faculdades de Medicina até seja). Tudo isso (e muito mais) tirado de obras em primeira edição da coleção particular do Dr. Schwartsmann.
Gratidão à Academia Passo-Fundense de Medicina por trazer intelectuais da estatura do Dr. Gilberto Schwartsmann para palestrar em nossa cidade. Para os mortais comuns, a sensação, pós-conferência, foi de que duas encarnações talvez não sejam suficientes para a leitura de todos os livros citados!
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

