OPINIÃO

Esteiras e divãs

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Em meados dos anos 1990, durante um carnaval fora de época no Rio, Vitor Ramil percebeu-se estrangeiro dentro do próprio país. Enquanto o Brasil celebrava na TV a euforia do calor convertida em identidade nacional, ele trazia à memória emocional outro clima: o da milonga, da cerração e da melancolia pampeana.

Desse desencontro nasceu sua obra-prima “A Estética do Frio”. Sua tese era simples: um país continental não poderia reduzir sua identidade cultural a uma única temperatura.

O alagoano Djavan foi mais sucinto sobre a melancolia invernal: bastava-lhe apenas um dia frio, um bom lugar pra ler um livro e o pensamento lá em alguém.

Durante os vinte anos em que morei no Rio, fui um parasita existencial da teoria lírica de Ramil entre meus pares facilmente impressionáveis com o exotismo dos tipos forjados no frio.

— Existe algum xarope caseiro contra a sudorese? — eu questionava, transpirando em bicas e evocando uma suposta ancestralidade de araque no manejo de ervas contra toda sorte de adversidades climáticas.

Quando me abatia algum sintoma de banzo do minuano, cantarolava com olhar distante aquela cantiga de infância que dizia que lençol térmico é Termobrás, que esquenta a gente no inverno — a qual por vezes creditava a Paixão Cortes, noutras a Jaime Caetano Braun.

Voltei pra Passo Fundo. E o frio se vingou de mim.

Fez-se mais uma manhã em que fantasmas assombravam de pelego e alienígenas se entorpeciam com carvoada e xarope de guaco.

O sol ainda não havia raiado, motivo pelo qual considerei repetir-lhe o exemplo e afundar mais alguns minutos sob o abraço pesado do edredom.

Da varanda, espio pelo lusco-fusco as primeiras silhuetas degeneradas de corredores se remexendo pela Gare. Quando eu era adolescente, a Gare era um território de baixa frequência, certa periculosidade e muita alucinação. Restava ao alto, em pleno barato dos delinquentes, o monumento do Homem-Voador, do Paulo Siqueira.

Paulo Siqueira foi um grande nome da hipotermia figurativa local. Entre suas obras expostas ao rigoroso inverno da cidade, a de Teixeirinha talvez seja a mais emblemática.

Certa manhã, amanheceu vestida em um pala improvisado de lençol.

Certa madrugada, eu e alguns amigos tentamos vestir de gorro o busto de olhar assustado de meu avô.

Penso no frio dos monumentos espalhados pela cidade. Passo Fundo é uma cidade monumental.

Penso no frio que devem sentir o cavalo do trevo e o cavalo acanhado sobre a marquise do Boqueirão.

Penso que precisamos cuidar melhor de nossos cavalos.

Penso que precisamos urgentemente de um viaduto na Perimetral.

Aos 48 anos, jamais morei tanto tempo no mesmo lugar. Foram muitas mudanças, algumas cidades e vários endereços. Aprendi tarde que o hábito da permanência molda o senso de pertencimento.

Quero permanecer na cama.

Eu pertenço àquelas cobertas.

Eu preciso de um lençol térmico Termobrás.

Esta casa se tornou um lar assim que entreguei meu coração à Josiane.

É um coração maduro, que um tanto bate e muito apanha.

Josiane decidiu repassá-lo aos cuidados de uma cardiologista.

Um bom cardiologista precisa, antes de tudo, dispor de um bom coração.

Quem auscultou o meu, sequer tinha um.

Tenho marcado um exame ergométrico às sete da manhã.

Tenho feito exames com mais frequência do que o SBT divulga o resultado parcial da Tele-Sena. Pelo volume de sangue que já transfundi para tubos e seringas, meu colesterol já deveria ter despencado pela metade. Depois de rodar por uma dúzia de especialidades, posso afirmar que todos são excelentes especialistas em preencher requerimentos de exames de sangue. Desta vez, além do teste de esteira, me foi pedido um raio-x de pulmão. De súbito, me veio à graça Manuel Bandeira:

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Talvez eu romantize demais uma dinâmica marcada pela rispidez científica.

Talvez eu tenha fantasiado demais o momento em que ela me perguntasse:

— E então, como vai esse coraçãozinho?

Ao que pudesse responder:

— Escutando muito Milton Nascimento.

Minha primeira experiência no urologista foi parecida. Entre tantas dúvidas pertinentes, a maior era sobre como ele iria se referir ao meu pênis na hora de mostrá-lo às suas análises clínicas. Guerreiro supunha um tratamento épico; campeão consagraria respeito; camaradinha sugeriria certa imaturidade centímetra.

Fui embora com o zíper intacto, um punhado de exames debaixo do braço e uma crise de identidade tremenda.

Às sete horas em ponto, o médico liga a esteira e penso na doutora Adriana, minha saudosa psicanalista.

Ela sim sabia o que se passa no fundo do meu peito e entre as minhas virilhas.

No conforto de um divã.

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