OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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O cessar-fogo entre Irã e EUA, que eu já classificara, em coluna anterior, como algo pior do que uma guerra inacabada, confirmou nesta semana, diante de todo o mundo, o diagnóstico da forma mais dura e mais previsível possível: ele simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse passado de uma pausa tática disfarçada de solução política. Trump declarou o fim da trégua depois que o Irã atingiu embarcações no Estreito de Ormuz, e o Comando Central americano respondeu com novos ataques contra dezenas de alvos iranianos, incluindo instalações portuárias e uma ponte ferroviária perto de Teerã. A retomada da guerra não chega como surpresa para quem acompanhou o desenrolar dos acontecimentos desde fevereiro. Um armistício construído sobre exigências inaceitáveis para Teerã, como o fim total do enriquecimento de urânio, jamais teria condições de amadurecer em paz duradoura. Faltava apenas o estopim, e o Estreito de Ormuz, artéria por onde passa parcela relevante do petróleo mundial, cumpriu esse papel com precisão. Diante desse quadro, arrisco três cenários para as próximas semanas.

Cenário 1

O primeiro, o pessimista, prevê o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz e um bloqueio naval americano que Trump já ameaçou impor. Nessa hipótese, o preço do petróleo dispara, a inflação global volta a pressionar economias já fragilizadas, e o conflito se espalha para bases americanas no Golfo, arrastando Bahrein, Kuwait e Jordânia para a guerra, ainda que de forma indireta. O regime iraniano, encurralado e sem margem de negociação, pode radicalizar sua resposta justamente para sobreviver internamente, o que tornaria qualquer saída diplomática ainda mais distante.

Cenário 2

O segundo cenário, o intermediário e, a meu ver, o mais provável de todos neste momento, é o de uma guerra de desgaste prolongada, sem escalada definitiva, mas também sem qualquer horizonte de pacificação. Ataques pontuais, retaliações calculadas e sanções renovadas continuariam compondo essa rotina, enquanto Irã e EUA testam os limites um do outro sem cruzar o ponto de não retorno. Trump, pressionado internamente pela queda de popularidade e pelo risco eleitoral de novembro, tenderia a alternar sinais de força com aberturas discretas para negociação, exatamente como fez ao mencionar publicamente que Teerã "ligou pedindo um acordo". Essa ambiguidade, longe de ser fraqueza, é hoje o padrão mais realista de conduta das duas partes.

Cenário 3

O terceiro cenário, o desejável, e talvez também o mais difícil de alcançar, dependeria de uma mediação regional crível, provavelmente costurada pela Turquia, capaz de reconstruir um cessar-fogo que não repita os erros do anterior. Isso exigiria condições bem mais realistas e justas por parte de Washington e garantias de sobrevivência política para o regime iraniano, condição sem a qual nenhum acordo se sustenta. Reconheço que esse desfecho parece hoje o menos provável dos três, mas insisto nele porque colunas de conjuntura também servem para lembrar que a guerra, por mais que pareça inevitável aos olhos de quem acompanha cada nova manchete, continua sendo, antes de tudo, uma escolha humana, e não um destino traçado de antemão.

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