OPINIÃO

Réquiem para um beijo

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Durante milhões de anos, nossos antepassados claudicaram pela Terra aos trancos da extinção.

A grande revolução tecnológica daqueles tempos atendia pelo nome de bipedalismo. Algumas espécies ficaram pelo caminho antes de assumirmos definitivamente a postura ereta.

Por contratempo anatômico, o amor era envergado. A geometria da monta posterior vulgarizava o instinto, ainda sem ludibriá-lo em romance.

De resto, havia o fogo. Por muito tempo, nossos antepassados subsistiram do acaso das chamas. Raios e erupções combustavam algum conforto, mas faltava-lhes a sinapse da manutenção.

O fato de o Homo sapiens ter aprimorado a arte de fazer amor à luz da lareira, entretanto, não justifica o apagamento histórico cometido contra o Homo erectus.

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Os Milênios Erectus significaram para a evolução o que os Anos JK significaram para o Brasil: um surto de desenvolvimento sem precedentes — um breve susto de otimismo legítimo à espécie.

Ao Homo erectus devemos o controle do fogo. Com isso vieram a boa gastronomia, o conforto térmico, a segurança, e tudo o mais que hoje custa uma pequena fortuna em Gramado.

Mas, sobretudo, nos veio a postura. E, com ela, a hipótese de nos termos depravado na mais revolucionária — e injustamente subestimada — modalidade da fornicação humana: o papai-mamãe.

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O papai-mamãe é o mais importante experimento humano. São fortes os indícios de que deriva de seu arranjo aquilo que hoje reconhecemos como amor romântico. O contato visual nos trouxe forma e identidade ao acúmulo dos sentimentos; o pulso físico sobreposto ao lirismo do encantamento.

“Uga Uga”, diz o verso do grande poeta daqueles tempos.

É muito provável também que tenha sido nesse instante que nos surgiu o beijo.

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Historicamente, no entanto, os primeiros registros conhecidos do beijo datam de cerca de 4,5 mil anos, em textos da Índia antiga e da Mesopotâmia.

A ciência, por sua vez, descobriu que um reles beijo bem babado mobiliza um contingente impressionante de partícipes: dezenas de músculos da face, milhares de terminações nervosas e milhões de bactérias nos escambos de saliva.

Os olhos cerrados, neste contexto, nos serviriam ao realce dos outros sentidos: tato, olfato, paladar e, sobretudo, audição.

Faleceu ontem a cantora Bonnie Tyler.

Se você foi adolescente durante os anos 1980/90 e nunca beijou ao som de Total Eclipse Of The Heart, lamento informar que você viveu errado.

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O beijo social é uma modalidade que se impôs nas diferentes culturas de gentileza. Mas também é motivo de algumas rusgas. Até hoje, os dois beijos cariocas em contraponto ao estalo único dos paulistas são motivo de pequenas celeumas — as quais se juntam à rivalidade dos biscoitos contra bolachas, o ketchup na pizza, o chope com colarinho e o Tarcísio de Freitas.

Há também os beijos lúdicos: o que encosta e pisca os cílios são os beijos de borboleta; o beijo de esquimó é o que roça o nariz; o beijo de anjo é aquele que repousa nas pálpebras com delicadeza.

Os baianos beijam muito.

Durante um breve período, os gaúchos foram adeptos dos três beijos.

Belgas, russos e holandeses mantêm o hábito de beijar três vezes.

Já a Grécia é o berço da tragédia e do pensamento.

Cada um beija do seu jeito.

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No último sábado, tive o prazer de reencontrar a professora Tânia Rösing em um agradável almoço em sua casa, na companhia de Josiane e Seu Schneider.

Vieram à mesa as lembranças fraternas de nomes como Ziraldo, Josué Guimarães, Airton Dipp, Antônio Torres e Marcelino Freire.

As maledicências recreativas ficaram restritas a uns poucos ausentes. Seu Schneider, pelo lógico argumento de beber suco de laranja, foi o único malfalado de corpo presente.

Sobrou para alguns; faltaram outros tantos.

Não nos faltaram argumentos.

Um beijo, professora.

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