Há expressões que são universais. A nossa “gato escaldado tem medo de água fria”, embora politicamente incorreta nos tempos atuais, vai encontrar correspondência na “once burned, twice shy” dos nativos de língua inglesa. E, tudo nos leva a crer, nada melhor do que esse ditado popular para sintetizar o temor de muitas pessoas, no mundo, em relação à palavra El Niño. A ideia por trás desse adágio é que, para alguém que viveu uma má experiência, é natural, ter medo de se ver na mesma posição novamente. Assim, nada mais atual, em se tratando de El Niño, do que as notícias que ora dominam os veículos de comunicação e se espalham como fogo em rastilho de pólvora pelas redes sociais, para reforçar esse sentimento. Tragédias, livremente imputadas a El Niño, algumas sem qualquer prova, envolvendo inundações, secas e tempestades severas, em várias regiões do mundo e inclusive no nosso meio, não faltam.
No livro “Once Burned, Twice Shy?”, do sociólogo Michael Glantz, editado, em 2001, pela The United Nations University, o questionamento do título refere-se, explicitamente, às lições assimiladas com o fenômeno El Niño de 1997-98, até então, o mais forte do século XX (depois dele ainda vieram 2015/16 e, de triste lembrança para os gaúchos, 2023/24). O título do livro é bem ao estilo: “quem aprende sentindo na pele, sabe o que pode esperar se repetir a experiência da mesma forma”. No caso de El Niño, será que sabemos mesmo? A sociedade aprendeu, de fato, a conviver com esse fenômeno? Afinal, o que conhecemos sobre El Niño é suficiente? Estamos preparados para entender uma previsão climática baseada no fenômeno El Niño – Oscilação Sul? E mais, sabemos aceitar que, no caso de El Niño, o melhor, sempre, é que tragédias NÃO aconteçam, mesmo que se preparar para elas tenha tido custos elevados? Ou, da próxima vez, daremos crédito aos negacionistas de ocasião, em vez de seguir os serviços meteorológicos oficiais? Sabemos usar, estrategicamente, a informação científica relacionada com El Niño, para reduzir prejuízos e otimizar condições favoráveis?
O alardeado El Niño de 2026/27, como há quem ainda insista negar, não é mais uma previsão. É realidade. Sim, apesar da referência usual ser apenas El Niño, em vez de El Niño – Oscilação Sul (ENOS), tanto o componente oceânico, El Niño (relativo a anomalias de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial/TSM), quanto o atmosférico, Oscilação Sul, mensurado pelo Índice de Oscilação Sul/IOS (reflete diferenças normalizadas de pressão atmosférica entre Tahiti e Darwin/Austrália), estão em situação de acoplamento. Na região Niño 3.4, referência para nós, na atualização de 3 de agosto de 2026, feita pelo Centro de Previsão Climática dos EUA (CPC/NCEP/NOAA), a anomalia de TSM, na última semana, foi 1,5º C. E o IOS, para os últimos 30 dias, encerrados em 26 de julho, conforme o Departamento de Meteorologia da Austrália (Bureau of Meteorology) foi -28,0 (ou -2,8, uma vez que o serviço meteorológico australiano multiplica esse índice por 10). Os indicadores atmosféricos, como os ventos alísios (mais fracos ou invertidos), a pressão e os padrões de nebulosidade, estão consistentes com o fenômeno El Niño. Ou seja, a tese de falta de acoplamento oceano-atmosfera pode ser refutada.
A previsão de um El Niño classificável na categoria muito forte, que avançará crescendo em intensidade nesse segundo semestre de 2026, atingindo ápice na primavera, e que pode se estender até o outono de 2027, como indicam os grandes centros internacionais e os institutos brasileiros de meteorologia (INMET, CPTEC/INPE, etc.) merece ATENÇÃO de autoridades e da população, que é a parte mais interessada, em vez de NEGAÇÃO.
As peculiaridades de um El Niño, com a intensidade do que ora está sendo previsto, não por uma única instituição e nem por um único modelo, frise-se, em tempos de planeta e de oceanos aquecidos, pode, efetivamente, causar anomalias climáticas extremas PREOCUPANTES, mas nunca PARALISANTES. São previsíveis, no caso do Brasil, chuvas acima do padrão climático normal no Sul e em parte do Sudeste; ondas de calor, atraso no início da estação chuvosa e irregularidade na distribuição das chuvas no Centro-Oeste; seca na Amazônia e no Nordeste (nesta última região, dependendo da configuração do Dipolo do Atlântico). Mas, como diria Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que apenas o El Niño para ser responsabilizado por todas as tragédias climáticas dos tempos atuais".
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

