James Hansen, o laureado climatologista da Universidade Columbia, que, em 1988, foi a voz ativa da comunidade científica que levou para debate, no Congresso dos Estados Unidos da América, o perigo que representava para o futuro da humanidade a elevação descontrolada da concentração dos gases causadores do efeito estufa na atmosfera terrestre, em recente artigo, de 21 de agosto de 2026, “Super-Duper El Nino and the Bigger Problem”, disponível na sua página web (https://www.columbia.edu/~jeh1/), insiste que, apesar da adjetivação exacerbada de “super-ultra-mega”, representada pelo prefixo “Super-Duper”, para rotular o El Niño atual, há um problema maior do que o próprio El Niño, que precisa ser urgentemente reconhecido e atacado. Que problema seria esse? Maior do que o próprio El Niño?
O problema maior, na visão de James Hansen, é a aceleração do aquecimento global que vem sendo induzida pela atividade humana. A intensidade “anormal” do atual El Niño, tanto a diagnosticada quanto a que está sendo projetada, mais uma vez, para não pairar dúvidas, segundo James Hansen, seria de reponsabilidade atribuível à própria humanidade e não a causas naturais.
Outro ponto: o El Niño 2026 é fato e não mais especulação! As suas métricas de anomalias de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial e de conteúdo de calor em profundidade (300 m) superam os grandes El Niños do passado, a exemplo do evento 1997/98, que foi, até então, considerado o El Niño do século XX. Mas, não obstante que a sua presença já tenha dado o ar da graça em alguns eventos no sul do Brasil em 2026, os impactos maiores do atual El Niño deverão ser sentidos nos próximos meses, quando a primavera chegar.
A questão, que tem sido posta com ênfase por James Hansen, é que este “Super-Ultra-Mega El Niño” deu as caras em um planeta marcado pelo aquecimento global. Onde as ondas de calor que ora assolam o mundo, dando azo a mortalidade em massa de idosos (pessoas acima de 60 anos de idade, que são mais sensíveis a temperaturas elevadas) no escaldante verão europeu, deverão se intensificar, bem como ser exacerbada a variabilidade climática extrema, seja por meio de secas ou inundações severas, e seus impactos mundo afora.
O momento, com El Niño presente, mesmo que se admita como um fenômeno natural, mas que, indubitavelmente, pode ter os seus impactos potencializados pela atividade humana, é oportuno para a humanidade entender o perigo iminente e tratar com a seriedade que o assunto requer a questão da mudança do clima global. Queiramos ou não, a mudança do clima global deverá trazer consequências na reconfiguração de zonas climáticas no mundo, seja definindo uma nova geografia da produção agrícola e/ou de ocupação de espaços urbanos, cujo nível de vulnerabilidade e risco não mais justificará que edificações continuem sendo destruídas e reconstruídas, nos mesmo locais e moldes, para, outra vez, moto-contínuo, serem destruídas.
A aceleração do aquecimento global, que tem variado de 0,18 ºC/década (1970-2010), passando para 0,30 ºC/década (desde 2010) e chegando a 0,40 ºC/década (desde 2015) não tem dado sinais e arrefecimento. A continuar assim, o comprometimento dos serviços ambientais pode deixar de ser especulação e teses ambientalistas e virar realidade. No atual El Niño, pelo aludido artigo de James Hansen, a elevação da temperatura da superfície terrestre (que tem sido o dobro da verificada sobre os oceanos) pode atingir a marca de +2,7 ºC, relativo ao período 1880-1920, superando o recorde de +2,4 ºC, verificado no El Niño 2023/24. Quando esse calor vai ser sentido por aqui, indagam-se os mais ansiosos? Muito provavelmente, no começo de 2027.
As mais recentes atualizações do fenômeno El Niño - Oscilação Sul (ENOS) dão conta de um evento El Niño estabelecido. Os principais institutos internacionais que lidam com esse tipo de previsão são unânimes. El Niño está presente; as temperaturas da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial estão acima da média na porção central e leste deste oceano; as anomalias de circulação atmosférica na região do Pacífico equatorial estão consistentes com El Niño; o El Niño continua ganhando força; e estima-se acima de 90% de chance que vai atingir intensidade muito forte durante os meses de primavera e início do verão de 2027.
Tudo indica, deveremos ter o evento El Niño mais forte desde 1950. E os impactos no nosso clima? Por ora, cautela, esperar preparados para o pior quando a primavera chegar e torcer para que O Menino Jesus (El Niño) nos seja leve.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

