OPINIÃO

Por causa de mim

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A vida do profeta Jeremias, de São Pedro e de São Paulo testemunham as resistências humanas para “pensar as coisas de Deus”. Inicialmente, eles manifestam inquietação diante da presença de Deus em suas vidas e, principalmente no seu modo de agir. Depois, começam um processo de mudança, isto é, para “pensar como Deus”. Terminam a vida terrena, na certeza de “quem quiser salvar sua vida vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Jeremias 20,7-9, Salmo 62(63), Romanos 12,1-2 e Mateus 16,21-27).

O profeta Jeremias relata como Deus entrou na vida dele: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder”. Seduzir tem duplo sentido: ser enganado, corrompido ou cativado, atraído. Esta mistura de sentimentos o profeta manifesta, pois, sua vida de profeta foi marcada por sofrimentos e oposições. Por outro lado, confessa: “senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo”. Dedicou sua vida em prol do bem do povo ameaçado e depois exilado. “Perdeu sua vida”, mas ajudou muitos a viverem os tempos difíceis com esperança.

Jesus anuncia que vai sofrer muito, ser morto e ressuscitar no terceiro dia. Pedro que ama o mestre e deseja o melhor para ele fica indignado. Como é que alguém, que só está fazendo o bem, poderá ser tratado com violência e ser morto? Pedro representa o pensamento de cada pessoa sensata e também nos representa. A postura de Pedro permite a Jesus desenvolver uma teologia do sentido da doação total ao próximo, ressaltando três aspectos.

O primeiro é o tema da cruz e o convite para aceitar também o martírio como Jesus. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Na Carta aos Filipenses, escreve Paulo: “A vós foi concedida a graça, não só de crer em Cristo, mas também de sofrer por ele, sustentando a mesma luta que vistes em mim e, que agora, ouvis dizer” (1,29-30). O segundo argumento é a relação entre “salvar-perder, “perder-encontrar”. A renúncia e a doação não são fins em si mesmos, nem um simples exercício ascético, mas são orientados para salvar e encontrar a vida neste mundo e a eternidade. O terceiro argumento é construído sobre uma terminologia de tipo econômico: “vantagem”, “ganho”, “troca”, “retribuição”. Jesus afirma que nenhuma realidade humana se equipara ao tesouro do Reino de Deus.

Jesus propõe duas formas de viver: a primeira escolha consiste em viver para si e a outra escolha é viver para o Reino de Deus. Fazer de si mesmo a meta da vida, procurando no próprio “eu” a razão da existência terá como resultado, nas palavras de Jesus, “vai perder a vida”. Fazer da vida uma adesão ao Evangelho de Cristo, conduzirá à plenitude. Toda vida tem sentido na medida em que é direcionada a uma causa e para alguém.

As orientações que São Paulo dá na Carta aos Romanos é o seu modo atual de viver, depois de ter lutado dentro si mesmo, com Cristo e seus seguidores. “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”.

A vida do cristão é um constante exercício de viver “por causa de Cristo”. É um combate espiritual interior diário. É um discernir constante o que nas relações com o próximo e nas estruturas sociais sintoniza com os ensinamentos o Evangelho e o que contradiz a mensagem do Evangelho. A advertência de Jesus a Pedro: “Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as dos homens”, ressoa diariamente nos ouvidos dos fiéis. Somente pensando como Deus, o fiel anuncia a Boa nova do Evangelho, mas se pensa como os homens, mesmo que formalmente se declare cristão, ainda tem um caminho de conversão a percorrer.

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