Em Cardiff (capital galesa), quatro líderes assinaram um documento que merece atenção. John Swinney, Rhun ap Iorwerth, Michelle O’Neill e Mary Lou McDonald falavam como dirigentes do SNP, Plaid Cymru e Sinn Féin. O memorando pede que Londres se prepare para mudanças constitucionais e reconheça o direito de escoceses, galeses e irlandeses decidirem seu futuro. No mesmo dia, Escócia e País de Gales assinaram, desta vez entre governos, o Acordo de Cardiff. O documento é político, e a conversa ganhou peso em Londres. Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte somam cerca de 10,7 milhões de habitantes. A Escócia teve PIB estimado em 230,9 bilhões de libras esterlinas em 2025, incluindo a sua parcela geográfica offshore, e ocupa posição privilegiada no Atlântico Norte. O petróleo e gás do Mar do Norte entram nessa equação, ao lado de um potencial renovável que ganhou valor estratégico depois da guerra na Ucrânia e da crise energética europeia. A conta envolve dinheiro, território, energia e projeção. E aqui a geografia pesa tanto quanto a economia.
Fatores geopolíticos
É na Escócia que a discussão fica mais incômoda para Londres. Faslane abriga os submarinos da força nuclear britânica e Coulport, as ogivas associadas ao sistema Trident. Essa infraestrutura sustenta a dissuasão nuclear do Reino Unido e sua posição dentro da OTAN. Uma independência escocesa colocaria tudo isso em uma negociação sobre bases, ativos, prazos, custos e eventual deslocamento. Não conheço muitas separações políticas em que seja preciso discutir também onde ficará estacionado o arsenal nuclear de uma das partes. A Irlanda do Norte traz outro problema. O Acordo de Belfast já prevê uma via para a reunificação com a República da Irlanda. Uma mudança desse porte redesenharia a única fronteira terrestre britânica com a União Europeia. Há nisso uma ironia pós-Brexit: Londres escolheu sair do bloco, enquanto forças políticas importantes nas três nações associam seu futuro a uma reaproximação europeia. Quando faço a conta de uma eventual desagregação, PIB é apenas uma coluna. Entram população, energia, território, bases militares, posição no Atlântico Norte, fronteiras e influência diplomática. O Reino Unido continuaria relevante inclusive como potência nuclear e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. A sua geografia de poder, porém, teria de ser refeita.
Cenários
No cenário de continuidade, a União permanece como está, por enquanto, no curto prazo e a pressão constitucional continua na disputa política. Escócia e País de Gales dependem de Westminster para uma via legal de independência, enquanto a Irlanda do Norte possui caminho próprio previsto no Acordo de Belfast. No possível, uma consulta popular em um desses territórios altera a dinâmica dos demais e abre uma negociação que iria além de bandeiras e fronteiras: dívida, ativos, defesa, energia e relações com a União Europeia entrariam na mesa. No desejável, tomo como referência um processo institucional, negociado e legitimado pela população diretamente envolvida. As uniões políticas também dependem de consentimento para atravessar o tempo. A reunião de Cardiff me deixou com uma pergunta que vale acompanhar: em uma eventual separação, quanto território sairia do Reino Unido e quanto poder iria embora junto com ele?

