OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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Uma passagem da abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU me chamou especialmente a atenção. O presidente da sessão, Khalilur Rahman, recuperou uma fala pronunciada naquele mesmo plenário há 40 anos. Em 1986, já se discutia uma crise de confiança nas Nações Unidas e a necessidade de revitalizar a organização diante das mudanças do mundo. Agora, em 2026, o tema escolhido é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação”. Quarenta anos é tempo suficiente para desconfiarmos de que o problema vai além das circunstâncias de cada período. Quem acompanha as Assembleias Gerais conhece o roteiro. Os líderes chegam a Nova York, apresentam as suas preocupações, falam das guerras em curso, cobram respeito ao direito internacional, defendem o multilateralismo e, com frequência, pedem mudanças no Conselho de Segurança. António Guterres fez isso novamente nesta semana. O Conselho ainda carrega a distribuição de poder saída da Segunda Guerra Mundial e sua reforma continua sendo discutida, Assembleia após Assembleia. Há razões para isso. Reformar a ONU significa mexer justamente nas posições ocupadas pelos países que dispõem de maior poder dentro dela. 

A diplomacia procura outras mesas

Tenho a impressão de que esta Assembleia oferece uma imagem particularmente boa dessa contradição. Quase 130 chefes de Estado e de governo foram a Nova York. Xi Jinping tomou outro caminho, indo para Washington. A China está representada na ONU pelo vice-presidente Han Zheng, enquanto Xi realiza uma visita de Estado aos EUA e se encontra com Donald Trump na Casa Branca. É difícil observar as duas agendas sem estabelecer alguma relação entre elas. A Assembleia continua sendo o único espaço capaz de reunir praticamente todo o sistema internacional. Isso tem um enorme valor diplomático. Ao mesmo tempo, quando observo onde estão sendo discutidos alguns dos temas que podem alterar efetivamente a relação entre as grandes potências, encontro cada vez mais negociações bilaterais, arranjos regionais e grupos restritos. Trump e Xi têm sobre a mesa comércio, tecnologia, inteligência artificial, Taiwan e questões de segurança. O resultado dessa conversa interessa muito além dos dois países. 

Entre o palco e a mesa

Talvez seja justamente aí que esteja uma das dificuldades da ONU contemporânea. Ela continua indispensável em inúmeras áreas, da ajuda humanitária às agências especializadas, e oferece aos Estados uma tribuna que nenhuma outra organização conseguiu substituir. A minha dúvida está em outro ponto: quanto espaço ainda resta às Nações Unidas para organizar politicamente as grandes disputas de poder? A resposta depende menos do edifício em Nova York do que dos países que o ocupam. A ONU nasceu de determinada distribuição de poder e tenta responder a um mundo profundamente diferente daquele de 1945. Qualquer reforma substantiva, porém, depende também daqueles que mais se beneficiam da estrutura existente. Por isso, acompanho com atenção as duas cidades nesta semana. Nova York reúne o mundo e volta a discutir como recuperar a capacidade do multilateralismo. Em Washington, EUA e China tratam diretamente de uma relação que influencia boa parte da ordem internacional. Entre uma cidade e outra há mais do que 330 quilômetros. Há uma boa medida de onde estão, hoje, o simbolismo e o poder.

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