Alguns hão de lembrar, outros, menos atentos à mutação acelerada da paisagem urbana de Passo Fundo, não. Refiro-me a uma casa antiga de madeira, pintada de azul, janelas amarelas e telhas francesas, incrustrada no centro de um terreno localizado na Rua Paissandu, ao lado da Galeria Central, de fronte ao Colégio Marista Conceição, onde, atualmente, funciona um estacionamento rotativo e um serviço de lavagem automotiva. Aquela casa, mais especificamente as pessoas que viveram nela, é o tema e dá o nome ao novo livro de Leandro Malósi Dóro, “A Casa Azul – Histórias de uma Passo Fundo que deixou de existir”, ora em fase de pré-lançamento, com versão disponível para leitura e revisão. A capa traz a marca do traço inconfundível do exímio desenhista Leandro Dóro.
O livro “A Casa Azul”, pela temática, poderia ser um romance. Não é. Foi escrito no formato de contos. São oito capítulos e 208 contos breves, que abrangem as memórias de Elvira (a avó), Hilda (a mãe) e Leandro (o filho e autor) e suas relações com Passo Fundo, cobrindo o período que vai de 1940 a 2002. Cada capítulo, na forma de homenagem para Hilda e Elvira, e não é difícil entender a razão, uma vez que foram as encomendas preparadas por elas que garantiram a sobrevivência familiar, leva o nome de doces ou de salgados. Sucedem-se: Pão de ló; Brigadeiros; Empadinhas; Risoles; Marta Rocha; Coxinhas; Fios de ovos; e Torta de nozes.
Os personagens e as histórias são reais, mas, evidentemente, o autor colocou pitadas de ficção, muitas vezes sem conseguir o intento, para amenizar ou colorir com traços de suavidade o que soa trágico. Apenas Elvira, Hilda e Leandro, nas histórias, mantem as suas identidades verdadeiras. Os demais têm os seus nomes levemente modificados, visando à preservação de identidades, mas que, com relativa facilidade, para quem tem o mínimo de conhecimento sobre Passo Fundo, podem ser identificados. Ou você não consegue associar “Álvaro de Castro, o jornalista de Passo Fundo ligado à criação de O Pasquim”, com Tarso de Castro? Ou relacionar “as irmãs Ibde quase sempre apareciam juntas. A mais velha conduzia a outra pelo braço...”, com aquelas duas senhoras, as irmãs Dipp ou as professoras Suria e Gessi, que habitavam uma residência na Av. Brasil, na quadra entre as ruas Fagundes dos Reis e Capitão Eleutério, cuja fachada preservada foi recentemente inaugurada e colocada uma placa de identificação dos antigos moradores daquela casa?
Leandro Dóro, além das habilidades como desenhista e cartunista, é dono de texto forjado no jornalismo, que se sobressai nas histórias do livro “A Casa Azul”. São contos de leitura fácil e agradável, cujos conflitos dos personagens surgem e se resolvem em poucos parágrafos, com a brevidade que é característica do estilo jornalístico.
A história de Elvira e Hilda, nas memórias de Leandro Dóro, é marcada pelo trabalho e pela tragédia do vício em jogo do patriarca da família, que as deixou desamparadas, quando da sua morte. Exímias cozinheiras e doceiras, recomeçaram a vida com o apoio do trabalho no internato do Colégio Marista Conceição. Foram os irmãos da ordem que as ajudaram na aquisição da Casa Azul. Seguiram nessa atividade profissional até quando a saúde permitiu.
Leandro Dóro entrou na vida delas em 1975. Hilda, apesar da idade relativamente avançada e ainda solteira, nunca deixou de acalentar o sonho de ser mãe. Leandro foi adotado. Mas, só soube disso aos 5 anos de idade, durante uma ida ao médico. O que aconteceu nesse dia? Não vou tirar a surpresa de ninguém. Descubram lendo o livro.
Eu conheci Hilda e a Casa Azul, no começo dos anos 1990, quando fui buscar uma encomenda de doces e salgados para alguma festa que não lembro mais qual era. Elvira havia morrido em 1985. Leandro Dóro eu conheci na redação de O Nacional, em 1995. Depois, passou para o Diário da Manhã. Naquele veículo, como repórter, fez várias entrevistas comigo, sobre trigo e clima. Também estive na Casa Azul, mais umas duas ou três vezes, na década de 1990, conversando com Dóro sobre trabalhos de ilustração. E com Hilda, que apreciava a leitura, tive outros contatos, levando ou buscando publicações no prédio da General Osório, até pouco antes da sua morte. Uma mulher que não passou em vão nessa vida.
A casa azul envelheceu, os problemas de vazamentos do telhado e de apodrecimento do assoalho se avolumaram. A habitabilidade do local estava ameaçada. Hilda envelheceu, os anos de trabalho árduo cobraram o seu preço. Leandro virou adulto e, no final de 2001, quando foi demitido da função de repórter do extinto jornal Diário da Manhã, deixou Passo Fundo e foi viver em Porto Alegre, onde reside. Hilda vendeu a casa em 2002 e foi morar em um apartamento na Rua General Osório. Nesse local, viveria até a sua morte, em 2022.
Finalizo dizendo que é difícil, para não qualificar de impossível, ler esse livro sem ser tomado pelo sentimento de empatia. Especialmente se você conheceu os personagens. Caso, em algumas passagens, você não sentir a sua voz embargar e os seus olhos marejarem, lamento, mas é necessário buscar quando você deixou de ser um ser humano.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

