O Brasil não é para amadores
A frase “O Brasil não é um país sério”, atribuída ao ex-presidente francês Charles de Gaulle, incorporou-se ao nosso folclore político, embora ele nunca a tenha pronunciado. O escritor Carlos Heitor Cony comentou, com ironia, que todo brasileiro sério já sabia disso. Já o compositor Antônio Carlos Jobim consagrou outra máxima: “O Brasil não é para principiantes”, posteriormente popularizada na variante “O Brasil não é para amadores”. Mais do que simples gracejos, essas frases traduzem uma peculiaridade nacional: a capacidade de transformar o espanto diante de nossas contradições em humor — como se rir do absurdo fosse, muitas vezes, a única maneira de suportá-lo.
Liberais tramando golpe de Estado contra a democracia
A expressão “o Brasil não é para principiantes” vem à mente diante do uso do termo liberal em nosso sistema partidário. O partido que se apresenta explicitamente como liberal tem como principal referência política um líder apontado por investigações oficiais como articulador de uma tentativa de golpe de Estado para impedir a posse do presidente eleito. Segundo as apurações, o plano previa o emprego das Forças Armadas e incluía o assassinato do presidente eleito, de seu vice e do presidente do Supremo Tribunal Federal. A resistência institucional impediu que o projeto se concretizasse. Os acontecimentos posteriores às eleições e a invasão da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, integram o contexto dessa tentativa de ruptura. A contradição é evidente: o liberalismo pressupõe limites ao poder e garantias às liberdades; um projeto de ruptura da ordem democrática ameaça ambos.
O liberalismo brasileiro não é liberal
Um grupo ou partido político que pretende instaurar uma ditadura não pode ser considerado liberal, pois o liberalismo pressupõe a limitação do poder, a proteção dos direitos individuais e o respeito à vontade dos governados, expressa por meio de eleições livres e periódicas. A ditadura, ao contrário, concentra o poder, elimina ou enfraquece os mecanismos de controle institucional, restringe liberdades e suprime a competição política — práticas incompatíveis com os princípios liberais. Em síntese: o liberalismo exige limites ao poder; a ditadura busca eliminar esses limites.
A inversão irônica do discurso democrático
O cenário político recente revela uma ironia difícil de ignorar: setores que historicamente se apresentaram como liberais, defensores da democracia representativa e das instituições, passaram a flertar com práticas e discursos que corroem justamente esses pilares. Ao mesmo tempo, a esquerda, frequentemente acusada de rejeitar a democracia liberal ou de relativizar suas regras, assumiu, em muitos contextos, a defesa da ordem constitucional, da legalidade e da integridade dos processos eleitorais.
Liberalismo pressupõe democracia
Uma ditadura, por definição, concentra poder, elimina freios e contrapesos, restringe liberdades e suprime a competição política — exatamente o oposto dos princípios liberais. Em termos simples: o liberalismo pressupõe liberdade; a ditadura pressupõe sua negação. Todas as democracias reais convivem com partidos de esquerda e de direita, liberais e conservadores. Esses grupos entram em conflito permanente, como é próprio da vida política, mas todos devem respeitar as “regras do jogo”, isto é, os dispositivos constitucionais que garantem eleições legítimas, alternância de poder, direitos civis e limites institucionais. Sem esse respeito mútuo às regras, não há democracia, apenas disputa pelo poder sem compromisso com a legalidade.

