A derrota republicana nas eleições de meio de mandato foi mais ampla: os democratas conquistaram a Câmara e o Senado, com vitórias até em redutos conservadores, como o Texas. Seria um erro minimizar esse resultado, porque o eleitorado cobrou o custo de vida e a guerra contra o Irã. Também considero precipitado anunciar o fim político de Donald Trump. Clinton perdeu as duas Casas em 1994; Obama sofreu um revés devastador na Câmara em 2010 e perdeu o Senado em 2014. Ambos venceram a reeleição. A história recomenda cautela com manchetes que confundem uma eleição legislativa com um plebiscito definitivo sobre a sobrevivência de um movimento político. A diferença é que Trump já cumpre o seu último mandato, e a questão agora é o legado que deixará à direita americana e quem será o seu sucessor (aqui já há muita especulação).
A guerra entra na conta
Há algo especialmente revelador na reação de JD Vance. O vice-presidente atribuiu a derrota à guerra com o Irã e defendeu uma volta às prioridades do America First, incluindo o custo de vida. Trump também reconheceu o peso do conflito, embora sustente sua decisão de enfrentá-lo. Vejo aí uma divergência com consequências para 2028: Vance precisa preservar a herança política do presidente e, simultaneamente, convencer o eleitorado de que saberá corrigir seus custos. A virada democrata no Texas, inclusive na disputa pelo Senado, ampliou a gravidade do aviso. Um Estado que parecia garantia republicana mostrou que nenhuma coalizão eleitoral é propriedade permanente de um partido.
O poder que resta a Trump
Com as duas Casas sob controle democrata, haverá comissões de investigação, disputas orçamentárias e tentativas de restringir a agenda presidencial. Trump conservará o veto e recorrerá às ordens executivas, dentro dos limites impostos pela Justiça. Imagino, porém, que o centro de gravidade de seu governo se deslocará para a política externa, onde a Presidência dispõe de maior iniciativa, embora o Congresso conserve instrumentos relevantes sobre gastos, nomeações e comércio. Tarifas, sanções, negociações com aliados e adversários, pressão sobre a China e o desfecho da guerra iraniana formarão um campo decisivo. O Brent, que havia superado os cem dólares, recuou abaixo desse patamar enquanto escrevo. É um sinal de expectativa de distensão, jamais uma garantia. Uma nova escalada pode devolver a inflação energética ao centro da política americana.
Três cenários para os próximos dois anos
No cenário provável, Trump governará por decisões executivas, vetos e negociações pontuais, enquanto os democratas usarão o Congresso para fiscalizá-lo e desgastá-lo. No possível, a crise com o Irã se prolongará, com novas pressões sobre petróleo, aliados e contas públicas, agravando a disputa pela sucessão republicana. O cenário desejável, sob uma perspectiva conservadora, combina firmeza estratégica com prudência militar: encerrar a guerra em condições defensáveis, conter a expansão chinesa, reconstruir previsibilidade econômica e devolver centralidade ao interesse nacional americano. Considero que a maior prova de Trump será perceber que a força de uma potência também se mede pela capacidade de escolher quais guerras terminar. As urnas lhe impuseram limites; cabe a ele decidir como exercer o poder que permanece em suas mãos.

