Restrição no diesel preocupa postos e já impacta serviços públicos na região

Postos de Passo Fundo relatam aumento de preços e limitação no fornecimento, enquanto município de Ernestina reduz atividades por falta de combustível

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Estoque de gasolina é considerado estável — Foto: Liliana CrivelloEstoque de gasolina é considerado estável — Foto: Liliana Crivello
Estoque de gasolina é considerado estável — Foto: Liliana Crivello
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A instabilidade no mercado internacional do petróleo e as incertezas no fornecimento de combustíveis começam a gerar reflexos no abastecimento em Passo Fundo e região. Postos da cidade relatam aumento nos preços e restrições na compra de diesel junto às distribuidoras, enquanto municípios próximos já enfrentam impactos diretos nos serviços públicos.

Na quinta-feira (12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou medidas para tentar conter o impacto da alta do petróleo no Brasil. O governo federal zerou as alíquotas do PIS e da Cofins sobre a importação e comercialização do diesel e publicou uma medida provisória que cria uma subvenção para produtores e importadores do combustível. As ações foram justificadas pelo aumento do preço do barril de petróleo no mercado internacional, impulsionado pelo agravamento do conflito no Oriente Médio, especialmente pela guerra envolvendo o Irã. A escalada da tensão internacional tem pressionado a cadeia global de energia e levado países a liberar estoques estratégicos para evitar desabastecimento.

Segundo cálculos do Ministério da Fazenda, a retirada dos impostos pode reduzir o valor do diesel em cerca de R$ 0,32 por litro nas refinarias. A subvenção aos produtores e importadores deve gerar outro impacto semelhante, também estimado em R$ 0,32 por litro, o que poderia representar uma redução total de até R$ 0,64 no valor final do combustível.

De acordo com o governo federal, o subsídio será condicionado à comprovação de que a redução seja efetivamente repassada ao consumidor final. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) também deverá reforçar a fiscalização para evitar práticas consideradas abusivas, como retenção de estoques ou aumentos injustificados de preços. Mesmo com as medidas anunciadas, o mercado segue cauteloso, e os reflexos já começam a ser sentidos em diferentes regiões do país, incluindo o norte do Rio Grande do Sul.

Restrição no fornecimento em postos

Em Passo Fundo, alguns estabelecimentos relatam dificuldades para adquirir diesel na quantidade habitual. Em uma rede de postos, o operador de caixa Régis Cassel afirma que a situação se agravou nos últimos dias, com forte aumento na procura e limitação no fornecimento pelas distribuidoras. Segundo ele, o estoque atual está muito abaixo do necessário para garantir tranquilidade no abastecimento. “A situação do diesel está bem ruim. Subiu quase R$ 1,00 e há fila para comprar. As distribuidoras estão liberando vendas por cotas para que todos recebam um pouco”, relata.

Cassel explica que o posto normalmente mantém cerca de 20 mil litros armazenados para garantir o abastecimento até o final do mês. No entanto, atualmente o volume disponível é muito menor. “Hoje temos apenas dois mil litros de diesel, o que garante abastecimento para uns quatro dias. Estamos tentando comprar em Santa Catarina para garantir o produto e manter o atendimento”, afirma. No estabelecimento, o diesel é comercializado atualmente a R$ 7,45 por litro. Já a gasolina, segundo ele, segue com abastecimento considerado normal e sem risco de falta no curto prazo.

Outro relato que reforça o cenário de instabilidade vem de uma rede de postos que atua na região. O supervisor regional, que prefere não se identificar, afirma que o setor enfrenta forte restrição no fornecimento de diesel pelas distribuidoras. Segundo ele, a comercialização está sendo realizada praticamente apenas por meio de cotas. “A situação está caótica. Estamos conseguindo comprar somente no regime de cotas imposto pelas distribuidoras”, relata.

De acordo com ele, os repasses de preços têm sido constantes nos últimos dias. “Houve aumento, com repasses na casa de R$ 0,50 por litro, em média”, afirma. Ele também destaca que os estoques dos postos têm sido insuficientes para acompanhar a demanda. “Fica difícil precisar o que temos em estoque, porque assim que o combustível chega ele já sai. O consumidor está atento e antecipando o abastecimento”, explica.

O cenário se torna ainda mais sensível neste período do ano, com a aproximação da pré-safra e o aumento da demanda por diesel no setor agrícola. “Os lavoureiros já estão se preparando e os TRRs estão sem produto ou, quando têm, os valores chegam perto de R$ 8,00 o litro”, afirma. Segundo ele, em muitos postos da rede o diesel já se aproxima de R$ 7,00 por litro nas bombas.

Mercado ainda opera com cautela 

Em outro posto da cidade, o cenário é considerado mais estável, embora também haja aumento nos preços. O diretor e gerente de dois postos em Passo Fundo, Giovane Lauxen, explica que, no caso das unidades que administra, o impacto é menor porque o diesel não representa a principal fatia das vendas. “Os nossos postos são mais urbanos, então a venda de diesel é pequena. Desde que começou esse problema, há cerca de uma semana, tenho conseguido comprar normalmente”, afirma.

Mesmo assim, ele reconhece que o valor do combustível teve elevação nos últimos dias. “O preço subiu um pouco, o diesel ficou um pouco mais caro, mas isso está ligado à lei da oferta e da procura. Quando há menor oferta, o preço sobe”, comenta. Lauxen também avalia que há influência de movimentos especulativos no mercado de distribuição. “Existe um pouco de especulação por parte das distribuidoras. Muitas acabam se aproveitando do momento para aumentar os preços”, afirma.

Segundo ele, no caso da gasolina, a compra segue ocorrendo normalmente, embora com reajustes graduais. “Tenho comprado todos os dias da semana. O preço sobe um pouco, mas isso é reflexo da cadeia de custos. Quando a distribuidora aumenta, o posto precisa repassar para manter a margem”, explica. No posto administrado por ele, o diesel é vendido atualmente a R$ 6,69 por litro.

Prefeitura de Ernestina restringe serviços por falta de diesel

Se em Passo Fundo a situação ainda é considerada administrável, em cidades menores os efeitos da restrição no fornecimento já começam a impactar diretamente os serviços públicos. Na cidade de Ernestina, a prefeitura precisou reduzir parte das atividades da frota municipal por falta de diesel para abastecer os veículos. Desde o início da semana, apenas setores considerados essenciais seguem funcionando normalmente.

O prefeito Edir Bohem, conhecido como Nico, afirma que o problema começou após a distribuidora restringir o fornecimento ao posto responsável pelo abastecimento da prefeitura. “Infelizmente o posto que abastece o município está há alguns dias sem receber diesel. A distribuidora restringiu o combustível e isso acabou afetando diretamente o nosso atendimento”, explica.

A situação se tornou ainda mais delicada porque o outro posto existente no município pertence à família do próprio prefeito, o que impede legalmente qualquer compra por parte da administração pública. “Até temos combustível no nosso posto, mas por lei a prefeitura não pode abastecer ali. Então precisamos buscar uma alternativa legal para resolver a situação”, afirma. Como solução emergencial, a administração municipal iniciou um processo de dispensa de licitação para adquirir combustível em outro município da região.

Redução de serviços

A escassez obrigou a prefeitura a reduzir as atividades de setores que dependem intensamente de veículos e máquinas pesadas. Segundo o prefeito, as secretarias mais afetadas são Obras, Agricultura e Serviços Urbanos. “Desde segunda-feira reduzimos os trabalhos nessas áreas. A prioridade agora é garantir combustível para saúde e educação”, explica.

O consumo médio da prefeitura gira em torno de 10 mil litros de diesel por semana. No momento, o município tem conseguido adquirir cerca de mil litros por dia em postos de cidades vizinhas. “Estamos pegando um pouco de combustível em outro município, mas lá também existe limitação. Então precisamos administrar o que temos até que a distribuição volte ao normal”, relata.

A expectativa da administração municipal é de que o fornecimento comece a se regularizar nos próximos dias, a partir da compra emergencial autorizada. Enquanto isso, o setor de combustíveis segue acompanhando com atenção o cenário internacional e os desdobramentos das medidas anunciadas pelo governo federal. A normalização do abastecimento dependerá da estabilidade do mercado global de petróleo e da retomada do fluxo regular de distribuição pelas empresas no país.

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