A instalação de uma nova fábrica da Nestlé em Carazinho, inaugurada na semana passada, reforça o cenário de retomada e investimentos na cadeia produtiva do leite no Rio Grande do Sul. Com aporte de R$ 60 milhões, a unidade terá capacidade de processar 1,6 milhão de litros de soro por dia — volume equivalente a cerca de 10% da produção diária do estado — para a produção de whey protein, ingrediente utilizado em fórmulas infantis e suplementos alimentares.
Sinalização positiva para o setor
De acordo com o assistente técnico estadual da Emater, Jaime Ries, o investimento é um indicativo importante da vitalidade do setor. “É muito importante, porque se agrega a outros investimentos que vêm sendo feitos pela indústria de laticínios no estado desde o ano passado. Isso demonstra a vitalidade da nossa cadeia produtiva e a perspectiva de que ela continue sendo importante para o país como um todo”, afirma.
O técnico destaca que a fábrica se soma a outras iniciativas recentes voltadas ao processamento de soro de leite, um subproduto da fabricação de queijo. “Esse é um produto concentrado de proteínas que, ao ser desidratado, vira um suplemento alimentar muito importante, tanto em fórmulas infantis quanto em suplementos”, explica.
Segundo Ries, embora o volume anunciado seja expressivo, o impacto não está diretamente ligado à absorção de leite in natura, mas ao melhor aproveitamento da matéria-prima já processada.
Reflexos em toda a cadeia produtiva
Ainda assim, os efeitos são positivos para todo o setor. “Na medida em que a cadeia se organiza melhor, faz um melhor aproveitamento do leite como um todo e gera produtos com maior valor agregado, isso reflete de forma positiva em toda a cadeia”, pontua.
O especialista reforça que indústria e produtores estão interligados. “O que acontece de bom ou de ruim em um segmento da cadeia tende a se refletir sobre toda a cadeia. Por isso, o fato de as indústrias estarem investindo no Rio Grande do Sul é um forte sinalizador de continuidade da produção de leite”, avalia.
Estabilidade e previsibilidade
Além de agregar valor, o novo empreendimento também contribui para dar mais previsibilidade ao setor. A entrada em operação de fábricas com esse perfil, segundo Ries, traz maior estabilidade para os laticínios e, por consequência, para os pecuaristas.
Desafios ainda persistem
Apesar do cenário positivo, o assistente técnico lembra que a cadeia leiteira ainda enfrenta desafios estruturais e conjunturais. Entre eles, estão os baixos preços pagos ao produtor nos últimos anos, a estagnação do consumo de lácteos no país e a concorrência com produtos importados, especialmente de países do Mercosul.
No Rio Grande do Sul, fatores climáticos também impactam a produção. “As estiagens afetam a produção de alimento, e as elevadas temperaturas provocam estresse térmico nos animais, o que acaba reduzindo a produtividade”, destaca.
Mesmo diante das dificuldades, a avaliação é de que novos investimentos industriais, como o da Nestlé em Carazinho, representam um impulso importante para a cadeia leiteira gaúcha, ao diversificar a produção, ampliar mercados e reforçar a sustentabilidade econômica do setor.



