Promessa de ano novo: parar de fumar

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Em dezembro o governo federal lançou a nova Lei do Fumo, que estabelece um preço mínimo de venda de cigarro no varejo, aumento da carga tributária sobre o produto e proibição do fumo em locais fechados (os fumódromos), sejam eles privados ou públicos – e a propaganda nos pontos de venda.

Pela nova lei, também fica proibida a propaganda comercial de cigarros nos pontos de venda, sendo permitida somente a exposição dos produtos – desde que acompanhadas por mensagens sobre os malefícios provocados pelo uso do fumo. Outra obrigatoriedade prevista pela nova lei é o aumento de avisos sobre os malefícios do fumo, que deverão aparecer em 30% da área frontal do maço de cigarros, partir de 1º de janeiro de 2016.

Fica estabelecida em 300% a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o cigarro. O aumento no preço do produto está previsto para o início de 2012. Com o reajuste do imposto e o estabelecimento de um preço mínimo, o cigarro subirá cerca de 20%, em 2012, chegando a 55% em 2015.

Mas para quem fuma é difícil lagar o hábito. Foi por isso que o Medicina & Saúde conversou com o médico psiquiatra Leonardo Alovisi para saber por que o cigarro é tão viciante. Confira.

Medicina & Saúde – Na classe médica, quais as principais preocupações com relação ao cigarro?
Leonardo Alovisi -
o Tabagismo é considerado uma pandemia, sendo a maior causa de morte evitável no mundo. Mesmo com o avanço nos conhecimentos dos malefícios do fumo, ainda hoje um terço da população adulta é fumante, com uma maior concentração nos países em desenvolvimentos. Há cerca de 4 mil substâncias presentes na fumaça produzida pela queima do tabaco, sendo que a consequência do fumo é tão grave que o número de mortes por doenças tabaco-relacionadas é maio do que os óbitos por HIV, malária, tuberculose, alcoolismo, causa maternas e homicídios combinados. O tabagismo passivo, que pode ser definido pela inalação da fumaça do tabaco (cigarro) por indivíduos não fumantes, também está relacionado com o aumento de morbimortalidade entre pessoas expostas a poluição tabágica ambiental. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, o fumo passivo domiciliar mata no Brasil sete pessoas por dia. Implantação de políticas de ambientes 100% livres do fumo é a única forma de proteger as gerações presentes e futuras do adoecimento pelo fumo passivo.

M&S - Que efeitos o cigarro causa no cérebro para ser viciante?
LA -
A nicotina é a substância viciante do cigarro, desde a década de 60, as empresas de tabaco tem conhecimento disso. Ela é tão viciante que mais de 90% dos adolescentes que fumam quatro cigarros se tornam fumantes regulares, sendo que a vasta maioria destes fumantes o fará pelo resto da vida. Pesquisas mostram ainda 60% dos fumantes fumam depois de um ataque do coração e 80% das mulheres grávidas continuam a fumar durante toda a gravidez. O mais difícil de entender é como o cigarro poder ser tão viciante se não causa nenhuma sensação de barato, euforia ou excitação. Isso acontece devido à ação da nicotina no cérebro que faz você acreditar que a redução da ansiedade, o aumento da concentração, a sensação de prazer e satisfação proporcionado pelo cigarro são benefícios do mesmo, quando na verdade são custos. Quando você se vicia em nicotina, a redução de seus níveis sanguíneos gera ansiedade e sintomas de abstinência como dificuldade de concentração, irritabilidade, tristeza, entre outros, quando você fuma os sintomas passam dando a impressão que o cigarro lhe faz bem, mas isso é meramente a remoção temporária desse estado quimicamente produzido de ansiedade e mal estar pelo próprio cigarro. Você não acredita no que estou dizendo? Lembre-se dos primeiros cigarros que fumou na sua vida, quando o sabor era revoltante e desagradável. O sabor deles continua tão horrível quando era da primeira vez, apenas está disfarçado pelo estado de mal estar e ansiedade produzido pela redução da nicotina no sangue no intervalo entre um e outro cigarro.

M&S - Fumar cigarros light faz menos mal a saúde?
LA -
Fumar cigarros light é algo completamente ineficaz na redução dos riscos do fumo, porque os fumantes vão, automaticamente, fumar mais destes cigarros ou dar tragadas mais profundas, desse modo, inalarão maior quantidade de monóxido de carbono, alcatrão e outras 4 mil substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro

M&S - Por que é tão difícil parar de fumar?
LA -
Primeiramente, porque a nicotina é uma substância altamente viciante devido a via pela qual é administrada, maior parte da nicotina contida no cigarro é absorvida pelos alvéolos pulmonares. Em 30 segundos atinge-se o pico plasmático de nicotina. Para se ter idéia, essa via de absorção é mais rápida que a absorção endovenosa. E quanto mais rápido uma droga chega ao cérebro maior potencial de vício ela tem, outro fator é que a nicotina é rapidamente eliminada e quanto mais rápido a droga sai do organismo, mais rápido é a instalação dos sintomas de abstinência. Além da dependência física, os fumantes desenvolvem dependência psicológica e comportamental, a primeira refere-se às fortes crenças positivas que desenvolvem em relação ao fumo que fazem com que a idéia de parar pareça assustadora e desafortunada, a segunda, está relacionada com o hábito, já que um fumante traga cerca de dez vezes quando fuma um cigarro. Cada tragada despeja uma dose de nicotina no cérebro do fumante, reforçando o comportamento do fumo. Ao longo de trinta anos, isso terá acontecido mais de um milhão de vezes a um fumante que consuma 20 cigarros por dia, pouquíssimos comportamentos são repetidos tantas vezes assim, e com associações entre o consumo do cigarro e estímulos externos e internos prazerosos, tais como fumar um cigarro com amigos ou numa festa, ou fumar um cigarro para se desligar dos problemas. O sistema de recompensa do cérebro, liberará dopamina, quando o ex-fumante, passar por estas mesmas situações, aumentando o desejo de fumar. Mas, a maior barreira para parar de fuma é a falta de acesso ao tratamento adequado que consiste na Terapia Cognitivo-Comportamental associada a medicamentos como a vereneclina, bupropiona e adesivos de nicotina.

M&S - Começar a fumar na adolescência é mais nocivo que na vida adulta?
LA -
90% dos fumantes consumiram seu primeiro cigarro antes dos 21 anos. Jovens em geral subestimam os malefícios do tabaco e são propensos a acreditar que podem deixar de fumar a qualquer hora, porém, apenas 4% com idade entre 12 e 19 anos, alcançam a abstinência a cada ano. Fumar em qualquer idade é nocivo, mas quanto mais tempo tu ficas expostos as substância nocivas do tabaco, maior é o risco de desenvolver uma doença relacionado ao tabaco e mais difícil é de parar de fumar, não só pela maior intensidade da dependência física, bem como pelo aumento da dependência comportamental e psicológica devido a maior repetição de associações do hábito de fumar com algum comportamento ou sentimento.

M&S - É possível ficar totalmente livre do vício do cigarro?
LA -
Parcialmente verdadeiro, se por um lado a síndrome de abstinência tem seu pico no primeiro e segundo dia após ter parado de fumar e a maioria dos sintomas tende a passar na primeira semana, fora o aumento do apetite e as dificuldades cognitivas que podem incomodar por até 4 meses, e a fissura também se extingue na medida que a pessoa fique sem fumar. A vontade fumar pode ser desencadeada ao longo da vida, sempre que a pessoa se expor a pistas ambientais que lembrem o uso da droga, como tomar um cafezinho ou estar muito estressado, por exemplo. 

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