Mãe que abraça. Mãe que afaga. Mãe que dá bronca. Mãe que é dona de casa. Mãe que trabalha fora. Mãe que é pai também. Mãe que é mãe. Toda mãe sabe o significado que essa palavra tem e sabe que muito antes de pegar o filho no colo já se sentia totalmente responsável por ele. Um sentimento instintivo que lembra o princípio da humanidade. E muito desses sentimentos são sim instintivos. Foi por isso que o Medicina & Saúde foi conversar com o psicólogo Vinícius Thomé Ferreira, para tentar explicar como esse sentimento ocorre na grande maioria das mulheres.
Medicina & Saúde – É possível descrever o que acontece com a mulher que a faz tão rapidamente após a descoberta da gravidez sentir-se "mãe"?
Vinícius Thomé Ferreira – Ocorre um número enorme de sentimentos para a mãe, uns conhecidos, outros desconhecidos, porque a maternidade produz uma mudança muito importante na vida da mulher, especialmente se for o primeiro filho. A maternidade é um momento especial, e existem muitas mulheres que somente se sentem uma "mulher completa" depois que são mães. Esse sentimento indica que mesmo que seja bem-sucedida profissionalmente, que tenha uma boa família, amigos, um bom cônjuge ou companheiro ao seu lado, é só o filho que é capaz de preencher um vazio específico. Mesmo que o movimento feminista, muitas vezes, questione a maternidade, colocando-a como um fardo, a experiência da maternidade é especial, única.
M&S – Isso acontece para todas as mulheres?
VTF – Mesmo sendo um evento especial, nem todas as mães passam por uma aceitação rápida da gravidez, por mais que desejassem ser mães. Isso é uma contradição, mas que podemos observar que acontece. Pode ocorrer mesmo que mulheres que sempre desejaram ter filhos, quando sabem da notícia da gravidez, tenham sentimentos contraditórios pelo bebê e pela situação; outras que nunca queriam ter, quando sabem que estão grávidas, passam a ter sentimentos ternos e profundos pela criança. Isto porque a maternidade produz uma mudança no corpo e no status da mulher, que antes era uma profissional, uma esposa ou companheira, ou uma mulher solteira, sem relacionamento fixo, e agora passa a ter algumas limitações, mudanças corporais e hormonais que mexem com seu humor: ocorre aumento de peso (que as mulheres lutam para manter o mais baixo possível), o corpo incha, enfim, muda o seu funcionamento. Apesar da alegria que acontece na maioria das mães com a descoberta da gravidez, esses sentimentos contraditórios aparecem, e aí, a família, e o companheiro, se hover, possuem um papel muito importante para ajudá-la a passar pelos momentos ruins.
M&S – É normal que o comportamento mude e o filho passe a ser sempre a prioridade?
VTF – Nos meses iniciais, após o nascimento do bebê, é perfeitamente natural que ele seja uma prioridade emocional da mãe, porque é um ser totalmente indefeso, e que depende dos adultos para tudo. Com o processo de crescimento, ocorre uma autonomia gradual da criança, mas que somente será ampla quando ele se tornar um adulto. O processo de crescimento do bebê exige que os pais tenham gradualmente mudanças de comportamento, adequadas às mudanças de comportamento da criança. O comportamento da criança muda com o passar do tempo, e o comportamento dos pais também precisa mudar para responder a isso. Se a mãe, o pai, a família, mantiver o mesmo comportamento que alimenta e reforça a dependência da criança mesmo quando ela está crescida, alguma coisa inadequada pode estar acontecendo. Existe um mito na nossa sociedade que diz que a boa mãe é aquela que abre mão da sua vida pela do filho, se sacrificando totalmente pelo bem-estar da criança. Se fizer isso, a mãe corre o risco de deixar as coisas que são boas e importantes de lado, e ela corre o risco de não ser feliz. É muito mais danoso para uma criança ter uma mãe infeliz e que se sacrifica ao seu lado do que ter uma mãe que faz o que é necessário para a criança e é feliz. Os filhos aprendem os comportamentos dos pais pelo exemplo: se ela vive num ambiente onde percebe que a mãe está infeliz e se sacrifica por ela, a criança corre o risco de se sentir culpada por isso, abrindo uma janela para o sofrimento mental. Se ela vive num ambiente onde observa que a família faz o que é necessário para ela, mas sem abrir mão das coisas que as deixam felizes, ela compartilha a felicidade do ambiente e assim aprende que a felicidade é algo importante para a vida, levando isso para a vida adulta.

