Trair

Por
· 2 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

Por Rossana Stella Oliva Braghini – Psicanalista

Conversando sobre traição em uma entrevista recente para uma rádio regional, me pareceu que hoje existe uma preocupação maior por parte dos homens em serem traídos, do que existia nos homens que viveram seu apogeu sexual com suas parceiras até mais ou menos a década 1950. Isto por uma razão simples: hoje lhes fica um pouco mais evidente o que ontem não era. Que as mulheres desejam outros homens tanto quanto os homens desejam outras mulheres. Só que até a mencionada década, os homens tinham não só uma “licença para trair", como para “lavar sua honra a tiros” caso fosse "necessário". Logo, era óbvio, que o número de traições femininas deveria ser menor na prática que a masculina, mas não que o desejo de tal não existisse também para elas.

Hoje felizmente homens e mulheres têm mais possibilidade de expressarem sua sexualidade como desejarem, alguns inclusive se abstendo dela. Porém, em relação a infidelidade, como solução de vida, eu tenho um senão. Pensemos juntos: em que consiste a traição amorosa?

Consiste em que uma das partes rompe com uma combinação feita a dois, sem avisar a outra. Caso contrário, se houvesse “aviso prévio”, que as combinações estavam mudando, não seria traição, mas uma decisão, com todos os preços pagos.

As pessoas traem por diversas razões, mas eu acredito que no mais das vezes, a fantasia que está vinculada ao ato de trair, não está tão evidente assim para quem trai. Assim, as pessoas vão logo inferindo a partir do desejo de trair, “que o amor acabou e hora de se separar”, as vezes até auxiliados por profissionais que se dão ao luxo de dizer o que o sujeito deve ou não fazer de sua.

Cito apenas três fantasias, como exemplo do que digo, porque podem ser tantas quantos sujeitos existirem na terra, já que em psicanálise, temos somente a narrativa de cada pessoa para dar conta da sua.

1) O sujeito pode ter se sentido traído em outro campo e esta foi a forma que encontrou para dar o troco.

2) Existe um desejo intenso de reinventar-se no campo pessoal, e, como bem escreveu Contardo Calligaris, a busca por “um novo amor", serve como uma luva para esta intenção.

3) Ou o medo e o pavor de entregar-se ao amor, que pode representar o Outro primordial (em geral encarnado na infância, pela mãe toda poderosa, que nos demandava e que nós queríamos atender esta demanda), pode muito bem provocar este tipo de defesa.

Pois então, justamente o que não me parece bem na traição de carreira, é que se tomarmos como exemplo estas fantasias, a pessoa desconhece a sua fantasia que a subjuga desde seu inconsciente. (Aviso!!! que a fantasia não esteja ainda decifrada, não exime ninguém de seu encargo, porque o inconsciente é de responsabilidade de cada sujeito). Continuando, logo, a pessoa pensa alegremente que está “no comando” da situação, quando não está, está submetida alhures. Pouquíssimas vezes a traição repetitiva é “só para se divertir”. Este é meu senão.

 

Gostou? Compartilhe